domingo, 19 de outubro de 2008

Machan e o Sri Lanka... alguns comentários

Assisti este domingo a um filme dirigido pelo produtor de “The Full Monty”, traduzido no Brasil como “Ou tudo ou nada”. Este novo filme também se volta a problemas sociais, desemprego e miséria, mas traz como grande aval um “based on a true story". “Machan” (http://www.mostra.org/32/exib_filme.php?filme=446) é uma ficção sobre o episódio em que 23 srilanqueses conseguiram o visto para a Alemanha fingindo ser da federação nacional de handebol do país. Por tratar-se da mostra internacional, tivemos a sorte de contar com a presença de Uberto Pasolini, o diretor, para uma conversa no final da exibição.
O filme é envolvente e muito bem feito, mas como não poderia ser diferente, sinto-me tentado a problematizar sobre o tema. Para tanto, deverei comentar algumas das cenas, razão pela qual sugiro a quem quer que possa estar lendo que não siga adiante se pretender assistir ao filme ou retome a leitura após fazê-lo. Não pouparei nem o “segredo do mordomo", pois não desejo resenhar o filme, mas sim comentar o que me deixou contrariado.
Gostei do filme. O diretor entrou na sala, figura simpática, italiano, londrino, esforçava-se em um misto de português, italiano, espanhol, mas terminou por falar em inglês. A história foi verídica, 23 srilanqueses desapareceram na Alemanha depois de enganar a imigração fazendo-se passar por um time de handebol convidado a disputar um torneio na Bavária. Essa é a primeira informação. Pasolini logo retira de sua pasta uma cópia de um artigo de jornal do Sri Lanka que elogia o filme, enfatizando que se tratava de uma verdadeira produção srilanquesa, nem sequer mencionava o nome do diretor, o que, aliás, ele considera fantástico. Isso foi possível graças a alguns meses de pesquisa com moradores das favelas do país, que dariam origem aos personagens. Enfim, mostrava-se bastante feliz em ver que o filme não tinha "um olhar ocidental".
Segundo artigo a sair da pasta do diretor: a notícia que deu origem ao filme que, com tom irônico, contava que os 23 jogadores da equipe nacional do Sri Lanka de handebol haviam desaparecido na Alemanha, mas o detalhe era que o país não possuía tal equipe. A notícia caíra nas mãos de Pasolini no dia em que o filme que produziria com Russel Crowe e Nicole Kidman fora cancelado porque o ator não podia nem ver o diretor. Portanto, decidiu fazer o filme o mais longe possível de Hollywood... Sri Lanka.

Mini-sinopse: Dois amigos, cansados de terem o visto negado para a Alemanha, encontram um panfleto convidando times do Sri Lanka para um torneio amistoso na Bavária. Um dos amigos agravou a situação de sua família, ao entregar suas economias a um pilantra que prometia tirar as pessoas do país e mandá-las para a Europa. O outro trabalha em um hotel, no qual vemos os nativos servis abaixarem a cabeça enquanto brancos refocilam no luxuoso ambiente. Os demais personagens têm situação semelhante, habitando favelas em condições “subumanas”. Durante a conversa, o diretor esclarece que todos os personagens foram inventados, visto que os 23 desapareceram na Europa, portanto, tinha decidido criá-los a partir do que constatou durante as já referidas pesquisas. Em outro esclarecimento importante o diretor explica que preferiu tratar o assunto com humor, com leveza, pois não o via como um melodrama.

Diante da miríade de filmes europeus mostrando a situação cada vez mais inflamável dos imigrantes no velho continente, é interessante ver esta trama em que personagens miseráveis circulam entre a lama das favelas e subempregos e pensam somente em viajar ao exterior para mandar dinheiro para o restante da família. Os caminhos possíveis são a criminalidade, os subempregos ou a emigração. Às peripécias para a obtenção do visto do grupo assistimos numa espécie de torcida empática esperando que a façanha se concretize. No fim, a vitória se dá. Os personagens conseguem chegar a Bavária, no aeroporto, suspense. Antes de conseguirem fugir, são “acolhidos” por simpáticos alemães que os conduzem à região do torneio. São obrigados a jogar, fato com o qual não contavam, e denunciados por sua falta de conhecimento sobre o jogo quase são apanhados, mas finalmente escapam. Há mais nuances e matizes, relações interessantes entre os personagens, mas o que interessa aqui é o clima de vitória que remanesce ao fim da aventura. Foi, de fato, a vitória de 23 oprimidos, foi, contudo, a derrota de toda uma nação. O filme constitui uma espécie de “inversão do oprimido”, bem conhecida, aliás, aqui no Brasil, no termo “jeitinho brasileiro”. Trata-se do louvor à astúcia que permite que indivíduos em uma situação desfavorável superem inimigos supostamente invencíveis. Sempre contam com nossa torcida... Mas aí reside a armadilha. Parece uma espécie de catarse que dá ao oprimido a ilusão da vitória, a vitória simbólica, serve, ainda, ao opressor cuja derrota, também simbólica, pode ser graciosa e o status quo se mantém harmoniosamente. Há dois personagens no filme que, de certa forma (superficial), apontam para esta questão. Um deles é o pai de um dos personagens, membro de um partido que tenta convencer sem sucesso o idealizador do plano a desistir de emigrar e ficar no país para transformá-lo. Não recebe créditos nem sequer de seu filho que ao final também emigra. O outro personagem é um pouco mais complexo, pois se trata do vigésimo quarto jogador, aquele que desistiu. Por ser “uma história real”, perguntei ao diretor quem era esse personagem, o que significava, pois evidentemente não existira. A resposta estava de alguma maneira no filme. É "o personagem que faz o certo" nos diz um dos outros 23 personagens. Circunstanciemos, porém, o motivo que o faz desistir de emigrar. Manoj é barman de um luxuoso hotel e, quando obtém o visto, ganha da gerência um jantar no restaurante para despedir-se de sua numerosa família. Sua família, porém, passa por momentos de constrangimento observando os preços nos cardápios e cercados por turistas que lhes lançavam olhares curiosos. Manoj vai ao balcão pedir umas bebidas e ouve dois jovens estrangeiros comentarem ironicamente "Parece que alguém ganhou na loteria". A expressão de Manoj se altera, esperamos uma reação a la “Daniel San", uma irrupção de violência ou algo, mas não é esse tipo de filme. O episódio serve para que ele desista de abandonar o país e a justificativa, diante do amigo incrédulo é: "Ontem olhei para minha família e me envergonhei deles, não quero que isso aconteça".
A resposta de Pasolini a minha pergunta endossou a justificativa de Manoj. Contou-me que ouviu em suas pesquisas muitos casos de pessoas que voltavam do exterior e não conseguiam se readaptar, não eram capazes de aceitar sua própria família e terminavam por emigrar novamente. Foi uma forma que encontrou de colocar esse “tipo” na trama, já que nenhum dos 23 poderia voltar.
Sem conhecer o Sri Lanka, admito até que precisei confirmar no dicionário sua grafia, atrevo-me a contradizer o artigo do jornal local que considera o filme uma produção genuinamente nacional, reconhecendo-se na trama. O olhar ocidental está presente do início ao fim, mas nem por isso é menos srilanquês, o olhar ocidental está incrustado em cada uma das tábuas que servem de ponte sobre as poças cloacais das favelas. Está em todas as partes no filme e na sociedade que emigra. O olhar ocidental reside na própria iniciativa de fazer o filme, com humor, com leveza, do simpático ítalo-londrino ao ler a hilária notícia do jornal australiano ou britânico. Um filme que fala sobre a emigração a partir do louvor a essa astúcia do derrotado que encontra o subterfúgio para vencer ocasionalmente, garantindo a catarse do público ávido público paulistano que agora sabe que lá como aqui há favelas, lá como aqui há um desespero por sair do país em busca das oportunidades do velho mundo e que “nada mais se pode fazer".
O filme é interessante em minha opinião, em vários momentos as cenas parecem tentar explicar demais (quase "sociologizar”), mas tudo bem... O problema maior está em sua premissa, a qual podemos ilustrar com outra seqüência e o correlato comentário do diretor. No luxuoso hotel, outro personagem trabalha como faxineiro. Em uma determinada cena, este vai ao banheiro do hotel e mantém-se com a cabeça abaixada enquanto um turista termina de lavar as mãos. No quadro ainda encontra-se outro empregado, mais idoso, cuja função era segurar a toalha para que o turista secasse sua mão. Depois de uma determinada passagem de tempo, o personagem volta a entrar no banheiro e, em vez de seu colega "segurador de toalhas", encontra dois jovens instalando um secador de mão na parede, a mesma parede em que ficava seu velho colega. À noite, revoltado, queixa-se com a mulher: "depois de 30 anos, eles o mandam embora e ainda instalam o secador na parede que tem a marca da cabeça do (....) e o secador nem seca nada”. Esta revolta aflora novamente mais ao final do filme quando esse mesmo personagem, antes de emigrar, volta ao banheiro do hotel e destrói o secador. Voltamos a destruir as máquinas. Pasolini, na conversa, explica que aquela cena foi criada para mostrar como algo simplesmente chega do ocidente e altera a vida daquelas pessoas desse modo. Novamente, insisto o “tal ocidente” está em cada parte de nossas misérias, não se separa do nosso jeito “autóctone” de ser brasileiro ou srilanquês, e podemos muito bem servir-nos dos “práticos e luxuosos” secadores de mão. O problema não está na tecnologia, não quebremos as máquinas, está em como nos apropriamos da miséria e aceitamos o “tal olhar ocidental”. Foi curioso imaginar que um desses turistas do hotel foi o próprio diretor do filme, quem corroborou que, de fato, hospedou-se no hotel que serviu de locação. Sempre fui extremamente favorável ao humor e à leveza para tratar temas suficientemente dramáticos, pois vejo nele uma forma de fazer com que o fato, às vezes demais cruento, chegue ao espectador. Mas começo a pensar, se não possui um efeito colateral de tornar digerível algo absolutamente dispéptico que não deveríamos, em circunstância alguma, tolerar. Enfim, gostei do filme... por isso mesmo, quis questioná-lo, questionar a mim mesmo, descobrindo quais são seus méritos, mas também seus riscos. O filme colhe seus prêmios, os 23 emigrados perdem-se na vida européia, (venderão kebabs?), e o Sri Lanka?

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