Assisti este domingo a um filme dirigido pelo produtor de “The Full Monty”, traduzido no Brasil como “Ou tudo ou nada”. Este novo filme também se volta a problemas sociais, desemprego e miséria, mas traz como grande aval um “based on a true story". “Machan” (http://www.mostra.org/32/exib_filme.php?filme=446) é uma ficção sobre o episódio em que 23 srilanqueses conseguiram o visto para a Alemanha fingindo ser da federação nacional de handebol do país. Por tratar-se da mostra internacional, tivemos a sorte de contar com a presença de Uberto Pasolini, o diretor, para uma conversa no final da exibição.
O filme é envolvente e muito bem feito, mas como não poderia ser diferente, sinto-me tentado a problematizar sobre o tema. Para tanto, deverei comentar algumas das cenas, razão pela qual sugiro a quem quer que possa estar lendo que não siga adiante se pretender assistir ao filme ou retome a leitura após fazê-lo. Não pouparei nem o “segredo do mordomo", pois não desejo resenhar o filme, mas sim comentar o que me deixou contrariado.
Gostei do filme. O diretor entrou na sala, figura simpática, italiano, londrino, esforçava-se em um misto de português, italiano, espanhol, mas terminou por falar em inglês. A história foi verídica, 23 srilanqueses desapareceram na Alemanha depois de enganar a imigração fazendo-se passar por um time de handebol convidado a disputar um torneio na Bavária. Essa é a primeira informação. Pasolini logo retira de sua pasta uma cópia de um artigo de jornal do Sri Lanka que elogia o filme, enfatizando que se tratava de uma verdadeira produção srilanquesa, nem sequer mencionava o nome do diretor, o que, aliás, ele considera fantástico. Isso foi possível graças a alguns meses de pesquisa com moradores das favelas do país, que dariam origem aos personagens. Enfim, mostrava-se bastante feliz em ver que o filme não tinha "um olhar ocidental".
Segundo artigo a sair da pasta do diretor: a notícia que deu origem ao filme que, com tom irônico, contava que os 23 jogadores da equipe nacional do Sri Lanka de handebol haviam desaparecido na Alemanha, mas o detalhe era que o país não possuía tal equipe. A notícia caíra nas mãos de Pasolini no dia em que o filme que produziria com Russel Crowe e Nicole Kidman fora cancelado porque o ator não podia nem ver o diretor. Portanto, decidiu fazer o filme o mais longe possível de Hollywood... Sri Lanka.
Mini-sinopse: Dois amigos, cansados de terem o visto negado para a Alemanha, encontram um panfleto convidando times do Sri Lanka para um torneio amistoso na Bavária. Um dos amigos agravou a situação de sua família, ao entregar suas economias a um pilantra que prometia tirar as pessoas do país e mandá-las para a Europa. O outro trabalha em um hotel, no qual vemos os nativos servis abaixarem a cabeça enquanto brancos refocilam no luxuoso ambiente. Os demais personagens têm situação semelhante, habitando favelas em condições “subumanas”. Durante a conversa, o diretor esclarece que todos os personagens foram inventados, visto que os 23 desapareceram na Europa, portanto, tinha decidido criá-los a partir do que constatou durante as já referidas pesquisas. Em outro esclarecimento importante o diretor explica que preferiu tratar o assunto com humor, com leveza, pois não o via como um melodrama.
Diante da miríade de filmes europeus mostrando a situação cada vez mais inflamável dos imigrantes no velho continente, é interessante ver esta trama em que personagens miseráveis circulam entre a lama das favelas e subempregos e pensam somente em viajar ao exterior para mandar dinheiro para o restante da família. Os caminhos possíveis são a criminalidade, os subempregos ou a emigração. Às peripécias para a obtenção do visto do grupo assistimos numa espécie de torcida empática esperando que a façanha se concretize. No fim, a vitória se dá. Os personagens conseguem chegar a Bavária, no aeroporto, suspense. Antes de conseguirem fugir, são “acolhidos” por simpáticos alemães que os conduzem à região do torneio. São obrigados a jogar, fato com o qual não contavam, e denunciados por sua falta de conhecimento sobre o jogo quase são apanhados, mas finalmente escapam. Há mais nuances e matizes, relações interessantes entre os personagens, mas o que interessa aqui é o clima de vitória que remanesce ao fim da aventura. Foi, de fato, a vitória de 23 oprimidos, foi, contudo, a derrota de toda uma nação. O filme constitui uma espécie de “inversão do oprimido”, bem conhecida, aliás, aqui no Brasil, no termo “jeitinho brasileiro”. Trata-se do louvor à astúcia que permite que indivíduos em uma situação desfavorável superem inimigos supostamente invencíveis. Sempre contam com nossa torcida... Mas aí reside a armadilha. Parece uma espécie de catarse que dá ao oprimido a ilusão da vitória, a vitória simbólica, serve, ainda, ao opressor cuja derrota, também simbólica, pode ser graciosa e o status quo se mantém harmoniosamente. Há dois personagens no filme que, de certa forma (superficial), apontam para esta questão. Um deles é o pai de um dos personagens, membro de um partido que tenta convencer sem sucesso o idealizador do plano a desistir de emigrar e ficar no país para transformá-lo. Não recebe créditos nem sequer de seu filho que ao final também emigra. O outro personagem é um pouco mais complexo, pois se trata do vigésimo quarto jogador, aquele que desistiu. Por ser “uma história real”, perguntei ao diretor quem era esse personagem, o que significava, pois evidentemente não existira. A resposta estava de alguma maneira no filme. É "o personagem que faz o certo" nos diz um dos outros 23 personagens. Circunstanciemos, porém, o motivo que o faz desistir de emigrar. Manoj é barman de um luxuoso hotel e, quando obtém o visto, ganha da gerência um jantar no restaurante para despedir-se de sua numerosa família. Sua família, porém, passa por momentos de constrangimento observando os preços nos cardápios e cercados por turistas que lhes lançavam olhares curiosos. Manoj vai ao balcão pedir umas bebidas e ouve dois jovens estrangeiros comentarem ironicamente "Parece que alguém ganhou na loteria". A expressão de Manoj se altera, esperamos uma reação a la “Daniel San", uma irrupção de violência ou algo, mas não é esse tipo de filme. O episódio serve para que ele desista de abandonar o país e a justificativa, diante do amigo incrédulo é: "Ontem olhei para minha família e me envergonhei deles, não quero que isso aconteça".
A resposta de Pasolini a minha pergunta endossou a justificativa de Manoj. Contou-me que ouviu em suas pesquisas muitos casos de pessoas que voltavam do exterior e não conseguiam se readaptar, não eram capazes de aceitar sua própria família e terminavam por emigrar novamente. Foi uma forma que encontrou de colocar esse “tipo” na trama, já que nenhum dos 23 poderia voltar.
Sem conhecer o Sri Lanka, admito até que precisei confirmar no dicionário sua grafia, atrevo-me a contradizer o artigo do jornal local que considera o filme uma produção genuinamente nacional, reconhecendo-se na trama. O olhar ocidental está presente do início ao fim, mas nem por isso é menos srilanquês, o olhar ocidental está incrustado em cada uma das tábuas que servem de ponte sobre as poças cloacais das favelas. Está em todas as partes no filme e na sociedade que emigra. O olhar ocidental reside na própria iniciativa de fazer o filme, com humor, com leveza, do simpático ítalo-londrino ao ler a hilária notícia do jornal australiano ou britânico. Um filme que fala sobre a emigração a partir do louvor a essa astúcia do derrotado que encontra o subterfúgio para vencer ocasionalmente, garantindo a catarse do público ávido público paulistano que agora sabe que lá como aqui há favelas, lá como aqui há um desespero por sair do país em busca das oportunidades do velho mundo e que “nada mais se pode fazer".
O filme é interessante em minha opinião, em vários momentos as cenas parecem tentar explicar demais (quase "sociologizar”), mas tudo bem... O problema maior está em sua premissa, a qual podemos ilustrar com outra seqüência e o correlato comentário do diretor. No luxuoso hotel, outro personagem trabalha como faxineiro. Em uma determinada cena, este vai ao banheiro do hotel e mantém-se com a cabeça abaixada enquanto um turista termina de lavar as mãos. No quadro ainda encontra-se outro empregado, mais idoso, cuja função era segurar a toalha para que o turista secasse sua mão. Depois de uma determinada passagem de tempo, o personagem volta a entrar no banheiro e, em vez de seu colega "segurador de toalhas", encontra dois jovens instalando um secador de mão na parede, a mesma parede em que ficava seu velho colega. À noite, revoltado, queixa-se com a mulher: "depois de 30 anos, eles o mandam embora e ainda instalam o secador na parede que tem a marca da cabeça do (....) e o secador nem seca nada”. Esta revolta aflora novamente mais ao final do filme quando esse mesmo personagem, antes de emigrar, volta ao banheiro do hotel e destrói o secador. Voltamos a destruir as máquinas. Pasolini, na conversa, explica que aquela cena foi criada para mostrar como algo simplesmente chega do ocidente e altera a vida daquelas pessoas desse modo. Novamente, insisto o “tal ocidente” está em cada parte de nossas misérias, não se separa do nosso jeito “autóctone” de ser brasileiro ou srilanquês, e podemos muito bem servir-nos dos “práticos e luxuosos” secadores de mão. O problema não está na tecnologia, não quebremos as máquinas, está em como nos apropriamos da miséria e aceitamos o “tal olhar ocidental”. Foi curioso imaginar que um desses turistas do hotel foi o próprio diretor do filme, quem corroborou que, de fato, hospedou-se no hotel que serviu de locação. Sempre fui extremamente favorável ao humor e à leveza para tratar temas suficientemente dramáticos, pois vejo nele uma forma de fazer com que o fato, às vezes demais cruento, chegue ao espectador. Mas começo a pensar, se não possui um efeito colateral de tornar digerível algo absolutamente dispéptico que não deveríamos, em circunstância alguma, tolerar. Enfim, gostei do filme... por isso mesmo, quis questioná-lo, questionar a mim mesmo, descobrindo quais são seus méritos, mas também seus riscos. O filme colhe seus prêmios, os 23 emigrados perdem-se na vida européia, (venderão kebabs?), e o Sri Lanka?
domingo, 19 de outubro de 2008
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Comentários sobre um certo artigo
Segue um curto comentário, pois não acho que pague a pena (ou a tecla) gastar mais que um parágrafo com ele, sobre o artigo do gaspari que se encontra no link: http://www.bemparana.com.br/redacao/index.php/2007/12/26/gaspari-seria-melhor-se-1968-nao-tivesse-existido/
É curioso o que um olhar anacrônico e enviesado é capaz de fazer com a história. Na opinião do colunista 68 nada mais foi que teoria, enquanto 89 foi o pragmático fim do imperialismo soviético e do correlato “autoritarismo das esquerdas”. Todas as ditaduras latino-americanas, anteriores mesmo a 68 - pensemos em Trujillo na República Dominicana - e posteriores que contaram com o franco (leia-se econômico e militar) apoio do Império norte-americano, são irrelevantes a partir dessa perspectiva. Mas o pior aspecto deste tipo de leitura é que ignora a conjuntura atual, ao louvar o triunfo de um sistema. O colapso do sistema soviético inumou de vez o que restava do "sonho daquela esquerda autoritária", mas certamente não eliminou as inquietações que o motivavam. A tortura institucionalizada persiste, a desigualdade social é ainda mais acentuada, os índices nos mostram um aumento da classe média tomando como único parâmetro o nível do consumo, as mulheres continuam em maior situação de pobreza, a equiparação de salários deve-se mais ao decréscimo salarial dos homens, os negros continuam em situação absolutamente desfavorável, a educação (mais vagas nas universidades!) continua elitista e servindo como um instrumento de segregação. Se 68 foi teoria, foi sonho, não se opõe a um pragmatismo de um sistema que triunfou, mas sim a uma visão de mundo, a uma teoria, a um sonho que reina inabalável, o da perpetuação de um sistema que se alicerça na desigualdade, na exploração e na dominação.
É curioso o que um olhar anacrônico e enviesado é capaz de fazer com a história. Na opinião do colunista 68 nada mais foi que teoria, enquanto 89 foi o pragmático fim do imperialismo soviético e do correlato “autoritarismo das esquerdas”. Todas as ditaduras latino-americanas, anteriores mesmo a 68 - pensemos em Trujillo na República Dominicana - e posteriores que contaram com o franco (leia-se econômico e militar) apoio do Império norte-americano, são irrelevantes a partir dessa perspectiva. Mas o pior aspecto deste tipo de leitura é que ignora a conjuntura atual, ao louvar o triunfo de um sistema. O colapso do sistema soviético inumou de vez o que restava do "sonho daquela esquerda autoritária", mas certamente não eliminou as inquietações que o motivavam. A tortura institucionalizada persiste, a desigualdade social é ainda mais acentuada, os índices nos mostram um aumento da classe média tomando como único parâmetro o nível do consumo, as mulheres continuam em maior situação de pobreza, a equiparação de salários deve-se mais ao decréscimo salarial dos homens, os negros continuam em situação absolutamente desfavorável, a educação (mais vagas nas universidades!) continua elitista e servindo como um instrumento de segregação. Se 68 foi teoria, foi sonho, não se opõe a um pragmatismo de um sistema que triunfou, mas sim a uma visão de mundo, a uma teoria, a um sonho que reina inabalável, o da perpetuação de um sistema que se alicerça na desigualdade, na exploração e na dominação.
Sobre os comentários de Lars Von Trier
"Grace sabe exatamente o que pensa sobre a democracia. Ela acredita saber exatamente como as pessoas deveriam viver. Porém, ela não tenta perceber o que seria a democracia do ponto de vista dos escravos. O que acontece com estas pessoas se trata de uma educação política e moral. O paralelo que se faz com o Iraque é evidente. Estou convencido que também no Iraque do Sadam Hussein existe uma moral. Obviamente extinta esta moral muitas pessoas se verão encarceradas. Mas não se pode abolir as velhas regras. E simplesmente colocar novas regras e acreditar que isto irá funcionar. Tradições morais tem que ser desenvolvidas socialmente. E eu acho cada vez mais espantoso, que nós pensamos que a nossa maneira com o qual nos organizamos socialmente seja a única correta."
Lars Von Tier
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Achei interessante esta colocação do Lars, especialmente levando em consideração as palavras ao final de Manderlay sobre a auto-emancipação. Mas reitero que cabe aqui uma reflexão sobre a nossa inserção em um sistema cuja estrutura tem uma integração que na superfície se dilui. "Acho cada vez mais espantoso que nós pensemos que a nossa maneira com a qual nos organizamos socialmente seja a única correta", diz Lars. Sim, concordo que é algo espantoso, mas não podemos de modo algum relevar nossos próprios valores enquanto interlocutores, pois isso nos conduziria a uma total inércia em relação a certas situações que, segundo tais valores, não poderíamos tolerar. Colocarei alguns exemplos concretos:
1 - Assisti há pouco tempo o filme Serras da Desordem, do Tonacci. O filme todo é muito bom, mas há um momento em particular em que foi possível sentir um calafrio generalizado entre o público. Em uma determinada seqüência, crianças indígenas com mais ou menos um ano de idade brincam com facas e objetos cortantes, diante do olhar passivo dos adultos. Ao término do filme, houve um debate com a presença do próprio Tonacci e uma das primeiras perguntas foi exatamente sobre esse episódio. Como ele, enquanto documentarista que, no entanto, não deixa de ser um indivíduo com olhar ocidental não se sentia impelido a tomar-lhes as facas? A resposta foi um pouco neste sentido, de não interferir com nossos valores, afinal, as crianças não se machucaram. Aprendiam a relacionar-se desde cedo com os instrumentos.
2 - Mas este caso levado a outros extremos, como podemos "obliterar” nossos valores em nome de uma convivência em comunidade? Se estamos em uma mesma comunidade, como posso conviver com alguém que, ao meu lado, espanque uma criança, por exemplo. Fechar os olhos e aceitar isto como “diferença cultural”, em minha opinião, não seria aceitável. Os direitos humanos são convenções estipuladas a partir de determinados valores (condensados em uma revolução, aliás), mas na ausência de qualquer outro valor que possa ser tido como netamente universal, a que podemos nos agarrar senão a nossos próprios valores? Agarrar-nos a nossos próprios valores não quer dizer, no entanto, defendê-los com unhas, dentes (e potentes mísseis), mas sim colocá-los no jogo dialógico entre culturas da forma mais horizontal possível. Difícil? Acredito que sim, principalmente quando os únicos critérios válidos nos processos decisórios passam a ser o poderio bélico e o econômico.
Cita Lars o caso do Iraque. Vale lembrar que o Iraque não existe nem existia no mundo como uma zona autóctone cujos valores discrepantes do "modelo democrático norte-americano” nascem de uma civilização absolutamente exótica. O Iraque faz parte da OPEP que, mediante acordos comandados principalmente pela Arábia Saudita com os Estados Unidos, mantiveram o sistema monetário dos petrodólares durante anos, uma moeda sem lastro cujo poderio se mantinha pela sua exclusividade na negociação do petróleo. Parece que o Iraque foi o primeiro a concordar em negociar o petróleo por euros, decisão que levaria à ruína o sistema monetário dos petrodólares. A represália foi imediata. Não sou perito no tema, tirei essas informações do link http://resistir.info/europa/euro_dolar_port.html. Mas sem dúvida, isso me faz pensar que não estamos falando de valores (ao menos não de valores abstratos).
Falar em auto-emancipação, portanto, em um cenário como este implica também certos riscos. Não se trata de defender, de modo algum, o intervencionismo. Contudo, é necessário entender como os países (ou sociedades) envolvidos não estão isolados e se relacionam de forma muito mais complexa. A globalização não teve início com a difusão do McDonalds, há quem diga que remonta às primeiras navegações. Lars Von Trier diz, ainda, que velhas regras não podem ser abolidas para que seja instaurada uma moral nova e exógena. Mas tampouco se pode ignorar como as “velhas regras” existem e se reproduzem estabelecendo uma relação com determinados valores hegemônicos.
"Nenhuma cultura esta só; ela é sempre capaz de coligações com outras culturas, e e isso que lhe permite edificar séries cumulativas. A possibilidade que tem uma cultura de totalizar este conjunto complexo de invenções de todas as ordens que chamamos civilização e função do número e da diversidade das culturas com que ela participa na elaboração - na maioria das vezes involuntária - de uma estratégia comum."
Levi-Strauss
Lars Von Tier
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Achei interessante esta colocação do Lars, especialmente levando em consideração as palavras ao final de Manderlay sobre a auto-emancipação. Mas reitero que cabe aqui uma reflexão sobre a nossa inserção em um sistema cuja estrutura tem uma integração que na superfície se dilui. "Acho cada vez mais espantoso que nós pensemos que a nossa maneira com a qual nos organizamos socialmente seja a única correta", diz Lars. Sim, concordo que é algo espantoso, mas não podemos de modo algum relevar nossos próprios valores enquanto interlocutores, pois isso nos conduziria a uma total inércia em relação a certas situações que, segundo tais valores, não poderíamos tolerar. Colocarei alguns exemplos concretos:
1 - Assisti há pouco tempo o filme Serras da Desordem, do Tonacci. O filme todo é muito bom, mas há um momento em particular em que foi possível sentir um calafrio generalizado entre o público. Em uma determinada seqüência, crianças indígenas com mais ou menos um ano de idade brincam com facas e objetos cortantes, diante do olhar passivo dos adultos. Ao término do filme, houve um debate com a presença do próprio Tonacci e uma das primeiras perguntas foi exatamente sobre esse episódio. Como ele, enquanto documentarista que, no entanto, não deixa de ser um indivíduo com olhar ocidental não se sentia impelido a tomar-lhes as facas? A resposta foi um pouco neste sentido, de não interferir com nossos valores, afinal, as crianças não se machucaram. Aprendiam a relacionar-se desde cedo com os instrumentos.
2 - Mas este caso levado a outros extremos, como podemos "obliterar” nossos valores em nome de uma convivência em comunidade? Se estamos em uma mesma comunidade, como posso conviver com alguém que, ao meu lado, espanque uma criança, por exemplo. Fechar os olhos e aceitar isto como “diferença cultural”, em minha opinião, não seria aceitável. Os direitos humanos são convenções estipuladas a partir de determinados valores (condensados em uma revolução, aliás), mas na ausência de qualquer outro valor que possa ser tido como netamente universal, a que podemos nos agarrar senão a nossos próprios valores? Agarrar-nos a nossos próprios valores não quer dizer, no entanto, defendê-los com unhas, dentes (e potentes mísseis), mas sim colocá-los no jogo dialógico entre culturas da forma mais horizontal possível. Difícil? Acredito que sim, principalmente quando os únicos critérios válidos nos processos decisórios passam a ser o poderio bélico e o econômico.
Cita Lars o caso do Iraque. Vale lembrar que o Iraque não existe nem existia no mundo como uma zona autóctone cujos valores discrepantes do "modelo democrático norte-americano” nascem de uma civilização absolutamente exótica. O Iraque faz parte da OPEP que, mediante acordos comandados principalmente pela Arábia Saudita com os Estados Unidos, mantiveram o sistema monetário dos petrodólares durante anos, uma moeda sem lastro cujo poderio se mantinha pela sua exclusividade na negociação do petróleo. Parece que o Iraque foi o primeiro a concordar em negociar o petróleo por euros, decisão que levaria à ruína o sistema monetário dos petrodólares. A represália foi imediata. Não sou perito no tema, tirei essas informações do link http://resistir.info/europa/euro_dolar_port.html. Mas sem dúvida, isso me faz pensar que não estamos falando de valores (ao menos não de valores abstratos).
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Alguns artigos recentes no diplo
O universal e o latino-americano: diálogos entrecruzados
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http://diplo.uol.com.br/2008-08,a2550
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Fernando Solanas: entre a Terra e as Nuvens, o Sonho
http://diplo.uol.com.br/2008-07,a2527
Em entrevista especial para Le Monde Diplomatique Brasil, um dos grandes cineastas latino-americanos contemporâneos descreve sua formação política, explica como ela influenciou sua obra e defende uma estética que articule investigação profunda da realidade com invenção formal incessante...
Viagem com o Submarino Vermelho
http://diplo.uol.com.br/2008-10,a2610
Entrevista com o grupo de jovens cineastas que aceitou organizar uma mostra sobre cinema político no 19º Festival de Curtas de São Paulo. Em debate, a importância de 1968, quarenta anos depois, as novas relações entre arte e política e a atitude dos que decidem agir em vez de mergulhar na militância burocrática...
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