Há quem diga que as pressões por transformações só tomam proporções incômodas e ganham certa inevitabilidade, quando o fato objeto de pressão afeta diretamente a classe média. Tal asseveração coere se pensarmos que a classe alta tem meios de pressão e lobby mais diretos e não precisam de grande articulação para fazer-se ouvir, enquanto as classes menos favorecidas carecem em geral justamente da capacidade de articulação, a qual costuma nascer de entidades partidárias, sindicais ou vinculadas aos movimentos de pressão da classe média.
Ignorando a crítica corrente, mas tão infundada como a noção de fim da história, de que a sociedade hoje não mais pode dividir-se em classes, convido a pensar aqui sobre um dos grandes problemas urbanos, especialmente em grandes metrópoles como São Paulo e Rio, a saber, os imensos engarrafamentos e a ineficiência das políticas públicas de transporte.
Conversava com uma amiga envolvida com o movimento dos bikers e, em um determinado momento, ela propôs um argumento que serviu de ponto de partida para este artigo. Eu lhe dizia que gostava da ideia de andar de bicicleta em vez de perder horas no trânsito, mas considerava que a cidade não oferecia estrutura para tanto, pois há trechos que são simplesmente intransitáveis para qualquer meio que não seja motorizado (minhocões, viadutos, túneis, pontes sem passarelas, grandes avenidas expressas, etc.). Ela, por sua vez, argumentou que pedalar era justamente uma forma de pressão, visto que hoje cada vez mais os ciclistas conquistam respeito dos motoristas e a atenção das autoridades, o que, por sua vez, poderá ter influências nas esferas decisórias. De fato, é uma forma interessante de ver o problema, abandonando o plano da crítica e partindo para a ação, mesmo que isso acarrete certos riscos. Mais adiante contou-me que, este ano, já perderam uma amiga atropelada por um ônibus. Efetivamente, é uma espécie de técnica de “guerrilha" com seus riscos correspondentes.
A partir deste colóquio, podemos analisar outra frase bastante corriqueira no discurso da classe média: "se o transporte público fosse melhor, certamente deixaria o carro em casa para ir trabalhar". Aplicando a mesma metodologia, que parte da proposta para a ação, poderíamos inferir que uma forma de pressão seria justamente utilizar o transporte público mesmo com suas precárias condições. Às classes menos favorecidas não resta mais que fazê-lo, acordar às 4 da manhã para uma suplicante jornada, talvez sonhando com o dia em que suas economias permitam parcelar um carro. Pensando na mesma lógica exposta na argumentação acima, a ação consistiria em “sacrificar-se”, acordando às 4 da manhã também ou aceitando chegar atrasado ao trabalho. Optando pela primeira proposta, haveria duas consequências práticas: a superlotação do transporte público que inviabilizaria a chegada da mão de obra a seu destino e o fim das happy hours e atividades de lazer noturnas durante a semana. Ambas as consequências afetariam diretamente os interesses do capital (proprietários dos negócios, empresas, e o mercado do lazer – bares, cerveja, etc.). No segundo caso, o mercado também ver-se-ia afetado pelas perturbações provocadas pelos atrasos. Certamente, se tomo essa decisão isoladamente, o problema será facilmente sanado pela contratação de outro funcionário com competências similares que não tenha tido a “exótica” ideia de abdicar do carro. Mas isto feito com o respaldo de um movimento articulado ganha outro tipo de conotação. Enfim, da palavra à ação o passo é pequeno, resta saber quem de fato deseja as transformações, quem de fato aceita os sacrifícios da nova "guerrilha".
sábado, 27 de junho de 2009
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