_ Um calendário de editais. – anunciou orgulhoso o Ministro da Cultura, apoiando um volumoso porta-fólio sobre a mesa de reuniões, imensa em função dos poucos presentes que o sigilo do encontro exigia. Fez uma premeditada e ensaiada pausa na esperança de que alguém interviesse com alguma pergunta. No entanto, o presidente nada mais era que um rosto imóvel com um evidente ponto de interrogação em sua expressão. Do Ministro da Defesa nada tiraria, pois, à diferença do Ministro da Cultura quem tinha a retórica como o bem mais precioso de um homem, fazia do silêncio seu verdadeiro culto. Era de conhecimento de todos no governo que no protetor de tela de seu computador tivera durante muito tempo a frase "Falar é prata, mas o silêncio é ouro", a qual considerava um engenhoso slogan. Só decidiu-se por retirar a frase de seu computador, mas certamente não de seu caráter, quando em uma altercação com o próprio Ministro da Cultura, este com a malícia que o caracteriza, fez a menção do uso que os nazistas faziam desta frase nos campos de concentração para “sugerir” aos internos que se mantivessem em silêncio. Imediatamente, tiveram que se virar os assessores do Ministro da Defesa para providenciar uma nova frase para a incauta tela do computador. Primeiro, entre os assessores, surgiu a ideia de utilizar-se da desbotada máxima Ordem e Progresso, além de patriótico era uma maneira de reiterar o compromisso com a democracia e desfazer eventuais interpretações errôneas que a anterior poderia provocar. Mas, finalmente, um dos assessores, o mais novo e arrojado, sugeriu que se usasse um dito popular e nacional, que além de também enfatizar o tom patriótico do ato, daria ao Ministro um ar mais popular afastando definitivamente as suspeitas que a anterior máxima poderia levantar. “Quem fala demais, dá bom dia a cavalo” passou a estampar a agora simpática tela de computador, a despeito do contragosto que proporcionava ao Ministro.
O silêncio de seus interlocutores não intimidou o Ministro da Cultura que sempre contava com um plano B, afinal o diabo não é sábio por ser diabo, mas sim velho, isso dizem. Após o esgotamento do que se poderia considerar um silêncio razoável, retomou a palavra com a mesma precisa entonação que a interrompera.
_ Sim, um calendário de editais. Eis aqui a proposta que me foi solicitada pelo excelentíssimo presidente para atingir o busílis do problema dos artistas, missão esta à qual espero ter correspondido, conforme explanarei ao expor as miúças do conteúdo do porta-fólio que a seguir passarei para vossa devida apreciação.
A expressão do presidente não se demudara em nada, mas o Ministro da Defesa já dava seus primeiros sinais de impaciência, apesar da promessa que fizera a si mesmo naquela manhã de controlar-se ante a emética loqüela do Ministro da Cultura, para evitar as desagradáveis pugnas que ocorreram em reuniões anteriores e mereceram as devidas reprimendas do presidente.
_ Antes, porém, de adentrar nos meandros do plano, considero assaz necessário resumir alguns dos pontos que nos urgiram a examinar a incipiente, mas já ameaçadora, situação. Segundo as estatísticas levantadas pelo Serviço de Inteligência, lidimamente apresentadas na última reunião extra-ordinária pelo nosso colega, ilustríssimo Ministro da Defesa, é cada vez maior o número de artistas entre a população de nosso país. Atrever-me-ia, plagiando outrem, afirmar que há cada vez mais artistas e já quase não restam homens. Os artistas, sabemos, não representam por si sós uma ameaça cujo jaez mereça especial atenção da pasta da defesa, como bem argumentei anteriormente, pois raramente são capazes de uma posição ou definição política, quanto mais de qualquer tipo de ação periclitante para a preservação da ordem. No máximo, são capazes de certas balbúrdias inférteis e refocilam-se facilmente com o júbilo propiciado pela primeira salva de palmas ou desmesurada ovação. Pintam, cantam, declamam, recitam, gritam, gravam, fotografam em êxtase, cospem arte como uma munição de sal que não mais faz que salgar. Contudo, admito, como tão bem expôs em ocasiões anteriores meu colega aqui presente, ilustríssimo Ministro da Defesa, esta classe, se permanecer ociosa, pode oferecer alguns inconvenientes. Mesmo sem grande sageza política e mais apta a organizar inócuos bafafas, é uma classe que decaída, sem dar vazão a seu ofício, pode, embora sejam escassos exemplos históricos de tal feito, articular-se para reivindicar palcos, telas, arenas, etc. Mais grave, contudo, seria uma eventual conjuminância entre esta classe e movimentos organizados com fins específicos, tais como, os sem-terra, os sem-teto, os quilombolas, movimentos feministas, entre muitos outros. Os artistas, a despeito das poucas luzes no que diz respeito a qualquer ação verdadeiramente eficiente, poderiam avolumar as colunas de tais movimentos e amplificar as vozes inarticuladas que habilmente nosso colega da pasta da defesa, em ações orquestradas conjuntamente com o Ministro da Justiça e o Ministro da Comunicação, fez esmaecer.
A prolixa apresentação do Ministro da Cultura, carece dizer, levava o Ministro da Defesa cada vez mais a um estado de iracúndia quase incontinente. Se não se manifestou, então, foi graças à intervenção do presidente que finalmente saíra da paralisia que o assolava desde o anúncio do plano.
_ Por favor, caro Ministro, rogo-lhe que nos traga mais substância e menos arte e introduza por fim a proposta que nos trouxe.
_ Sim, senhor presidente, não mais preambularei a respeito de tópico já tão conhecido por nossa pequena cúpula, julguei, no entanto, relevante este pequeno intróito para certificar-nos que as metas não discrepam daquelas que o plano contempla. É justamente para evitar o cenário anteriormente descrito que apresento-lhes o que cunhei, de forma assaz explícita, calendário de editais.
Sentiam-se já a sola da bota do Ministro da Defesa a tremelicar sobre os tacos de madeira da fornida sala.
_ Um calendário de editais estrategicamente distribuídos ao longo do ano manterá devidamente ocupada a esta prolífera classe.
Pela primeira vez, parecia que a interrogação na expressão do presidente desfazia-se para dar lugar a um ambíguo sorriso de Monalisa, como se pequenas centelhas estalassem em sua cabeça, guiando-o pelo labiríntico e tortuoso exórdio do seu Ministro. O Ministro da Defesa agora passava a esforçar-se para conter um nascente entusiasmo.
_ Destinaremos uma limitada verba, se aprovado for o plano, cujo montante podemos submeter a exame do Ministro da Fazenda, mas por ora atenhamo-nos ao conceito e não aos números e miuçalhas que adiante serão devidamente estudados. O fato que nos interessa neste momento é como manter ocupada esta classe cada vez mais numerosa e incômoda. Com os editais estrategicamente distribuídos ao longo do ano, os prazos se acumularão, serão inalcançáveis, incutirão nesta classe uma ansiedade severa e, como prazos e organização não costumam ser de seus mais fortes atributos, devemos criar rigorosos formulários, exigências e mecanismos para que o prêmio seja outorgado. Embora não seja nosso primoponendo objetivo, criar-se-ão, como rêmoras famintas, especialistas, peritos em preencher os formulários e os pré-requisitos de cada edital, o que nos é bastante útil para manter uma parcela importante da população igualmente ocupada, gerando um círculo irrompível de relações infrutíferas. Em tempo, já se verão os artistas isolados em seus estúdios, oficinas, salões, muquifos, etc., devorando os obscuros regulamentos dos benevolentes concursos, já nem se falarão, não lhes restará tempo para a criação, o que tampouco deixa de ser um efeito colateral vantajoso para a preservação da ordem. Com o tempo, os grupos se organizarão em pequenos cartéis e se encarregarão de distribuir os prêmios. Os que não pertencerem a este tácito cartel, não farão mais que esbravejar e empenhar-se para obter os contatos necessários para partilhar do generoso maná. Os de dentro, defendê-lo-ão com unhas, dentes, pincéis, instrumentos e corpos virtuosos – novamente fez uma premeditada pausa, mas desta feita, não desejava qualquer intervenção, esperava apenas o tempo exato para coroar sua apresentação com uma frase capaz de estremecer sua minúscula platéia, mas que em termos decisórios representava multidões. – Nada mais se terá de temer, as vozes estarão tão alquebradas que apenas serão capazes de ecoar os ditames de nossa própria ordem.
Já não eram centelhas, mas sim faróis que iluminavam os olhos do presidente e já permitiam destilar um ligeiro sorriso, não me equivoquei na escolha deste assessor, pensaria, algo prepotente, mas não me falha. O sorriso, apesar da referida ligeireza, era suficientemente notório para compensar as noites mal dormidas em busca daquela primorosa equação do Ministro da Cultura quem se inflou e lançou um igualmente ligeiro olhar impertinente ao Ministro da Defesa. A este não lhe restava mais que admitir, deglutindo a seco seu orgulho, torcendo o braço até estirar a pele, que era um bom plano, que pelo momento ao menos deveria abandonar suas sugestões mais drásticas que trazia discretas nos bolsos à espera do fracasso de seu colega.
_ É um bom plano. – mussitou ante o desafiador olhar do Ministro da Cultura que parecia já ocupar todas as cadeiras vazias da mesa.
O Ministro da Cultura, contudo, tinha uma carta extra, uma espécie de sobremesa surpresa preparada e guardada para o triunfo final.
_ Obrigado, caro colega, mas gostaria de adir ainda um detalhe que, se me for permitido por um instante afastar a modéstia, é o bordado que embeleza ainda mais a já graciosa urdidura apresentada, cujos detalhes poderão ser estudados neste confidencial porta-fólio. – preparou uma nova pausa, mas observou os ânimos de seus interlocutores e receou que este desnecessário prolongamento arruinasse seu zenital momento e preferiu não usar mais que uma breve respiração – Todo este cronograma de editais, será ainda mais eficiente em seu propósito se deixarmos grande parte de sua responsabilidade em mãos da iniciativa privada. Além de ajustar ainda mais o nó do cabresto, poupa-nos belas quantias. Mas isto, como previamente comentei, deverá ser estudado pelo nosso colega Ministro da Fazenda, quem certamente terá maior idoneidade para tratar do assunto.
_ É um bom plano. – grunhiu novamente o Ministro da Defesa, já totalmente resignado.
_ Sim – ratificou o presidente para total êxtase do Ministro da Cultura –, é um bom plano. Convocarei uma reunião com os demais ministros para procedermos à sua efetivação, com o devido estudo de todos os detalhes. Fico muito satisfeito que tenhamos chegado a um bom termo ante o preocupante cenário descrito com grande acurácia pelo senhor Ministro da Cultura.
Todo este diálogo, sigiloso do cabo ao rabo, mais do rabo que do cabo, infelizmente ficou inumado pelas grossas paredes da sala de reunião especialmente desenhadas para conter as mais sórdidas tramas políticas que, se conhecidas fossem, revolucionariam a Ciência Política hodierna que reconhece no sistema um ente acéfalo, sem intenções, e rechaça qualquer forma de maniqueísmo. Da mesma forma, o volumoso porta-fólio do Ministro da Cultura seria oportunamente incinerado e daria à luz um asséptico plano técnico, elaborado por tecnocratas e especialistas em Arte e Cultura. Qual profecia inconteste as palavras do Ministro da Cultura tornar-se-iam fato nos anos a seguir. Os editais tornar-se-iam um êxito completo, os artistas já não teriam tempo para se encontrar, pois estariam sempre às turras para terminar de preencher os formulários, expor as justificativas, demonstrar os objetivos e seviciar o verbo em busca de explicações das vantagens e contrapartidas sociais de seus PROJETOS, palavra que em poucos meses seria capaz de substituir qualquer ato de criação. Empresas nasceriam com o único propósito de guiar os desesperados artistas nos obscuros corredores da burocracia. Tudo correria na mais perfeita ordem, aumentando dia a dia o prestígio daquele gênio, a quem intimamente o presidente gostava de comparar a Maquiavel, até o ano de 2008, quando um inesperado sucesso no interior do estado de São Paulo, voltaria a trazer a intranquilidade ao gabinete do governo. Mas esta é outra história que deixaremos para os historiadores e arqueólogos dos séculos vindouros.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
sábado, 27 de junho de 2009
Da palavra a ação
Há quem diga que as pressões por transformações só tomam proporções incômodas e ganham certa inevitabilidade, quando o fato objeto de pressão afeta diretamente a classe média. Tal asseveração coere se pensarmos que a classe alta tem meios de pressão e lobby mais diretos e não precisam de grande articulação para fazer-se ouvir, enquanto as classes menos favorecidas carecem em geral justamente da capacidade de articulação, a qual costuma nascer de entidades partidárias, sindicais ou vinculadas aos movimentos de pressão da classe média.
Ignorando a crítica corrente, mas tão infundada como a noção de fim da história, de que a sociedade hoje não mais pode dividir-se em classes, convido a pensar aqui sobre um dos grandes problemas urbanos, especialmente em grandes metrópoles como São Paulo e Rio, a saber, os imensos engarrafamentos e a ineficiência das políticas públicas de transporte.
Conversava com uma amiga envolvida com o movimento dos bikers e, em um determinado momento, ela propôs um argumento que serviu de ponto de partida para este artigo. Eu lhe dizia que gostava da ideia de andar de bicicleta em vez de perder horas no trânsito, mas considerava que a cidade não oferecia estrutura para tanto, pois há trechos que são simplesmente intransitáveis para qualquer meio que não seja motorizado (minhocões, viadutos, túneis, pontes sem passarelas, grandes avenidas expressas, etc.). Ela, por sua vez, argumentou que pedalar era justamente uma forma de pressão, visto que hoje cada vez mais os ciclistas conquistam respeito dos motoristas e a atenção das autoridades, o que, por sua vez, poderá ter influências nas esferas decisórias. De fato, é uma forma interessante de ver o problema, abandonando o plano da crítica e partindo para a ação, mesmo que isso acarrete certos riscos. Mais adiante contou-me que, este ano, já perderam uma amiga atropelada por um ônibus. Efetivamente, é uma espécie de técnica de “guerrilha" com seus riscos correspondentes.
A partir deste colóquio, podemos analisar outra frase bastante corriqueira no discurso da classe média: "se o transporte público fosse melhor, certamente deixaria o carro em casa para ir trabalhar". Aplicando a mesma metodologia, que parte da proposta para a ação, poderíamos inferir que uma forma de pressão seria justamente utilizar o transporte público mesmo com suas precárias condições. Às classes menos favorecidas não resta mais que fazê-lo, acordar às 4 da manhã para uma suplicante jornada, talvez sonhando com o dia em que suas economias permitam parcelar um carro. Pensando na mesma lógica exposta na argumentação acima, a ação consistiria em “sacrificar-se”, acordando às 4 da manhã também ou aceitando chegar atrasado ao trabalho. Optando pela primeira proposta, haveria duas consequências práticas: a superlotação do transporte público que inviabilizaria a chegada da mão de obra a seu destino e o fim das happy hours e atividades de lazer noturnas durante a semana. Ambas as consequências afetariam diretamente os interesses do capital (proprietários dos negócios, empresas, e o mercado do lazer – bares, cerveja, etc.). No segundo caso, o mercado também ver-se-ia afetado pelas perturbações provocadas pelos atrasos. Certamente, se tomo essa decisão isoladamente, o problema será facilmente sanado pela contratação de outro funcionário com competências similares que não tenha tido a “exótica” ideia de abdicar do carro. Mas isto feito com o respaldo de um movimento articulado ganha outro tipo de conotação. Enfim, da palavra à ação o passo é pequeno, resta saber quem de fato deseja as transformações, quem de fato aceita os sacrifícios da nova "guerrilha".
Ignorando a crítica corrente, mas tão infundada como a noção de fim da história, de que a sociedade hoje não mais pode dividir-se em classes, convido a pensar aqui sobre um dos grandes problemas urbanos, especialmente em grandes metrópoles como São Paulo e Rio, a saber, os imensos engarrafamentos e a ineficiência das políticas públicas de transporte.
Conversava com uma amiga envolvida com o movimento dos bikers e, em um determinado momento, ela propôs um argumento que serviu de ponto de partida para este artigo. Eu lhe dizia que gostava da ideia de andar de bicicleta em vez de perder horas no trânsito, mas considerava que a cidade não oferecia estrutura para tanto, pois há trechos que são simplesmente intransitáveis para qualquer meio que não seja motorizado (minhocões, viadutos, túneis, pontes sem passarelas, grandes avenidas expressas, etc.). Ela, por sua vez, argumentou que pedalar era justamente uma forma de pressão, visto que hoje cada vez mais os ciclistas conquistam respeito dos motoristas e a atenção das autoridades, o que, por sua vez, poderá ter influências nas esferas decisórias. De fato, é uma forma interessante de ver o problema, abandonando o plano da crítica e partindo para a ação, mesmo que isso acarrete certos riscos. Mais adiante contou-me que, este ano, já perderam uma amiga atropelada por um ônibus. Efetivamente, é uma espécie de técnica de “guerrilha" com seus riscos correspondentes.
A partir deste colóquio, podemos analisar outra frase bastante corriqueira no discurso da classe média: "se o transporte público fosse melhor, certamente deixaria o carro em casa para ir trabalhar". Aplicando a mesma metodologia, que parte da proposta para a ação, poderíamos inferir que uma forma de pressão seria justamente utilizar o transporte público mesmo com suas precárias condições. Às classes menos favorecidas não resta mais que fazê-lo, acordar às 4 da manhã para uma suplicante jornada, talvez sonhando com o dia em que suas economias permitam parcelar um carro. Pensando na mesma lógica exposta na argumentação acima, a ação consistiria em “sacrificar-se”, acordando às 4 da manhã também ou aceitando chegar atrasado ao trabalho. Optando pela primeira proposta, haveria duas consequências práticas: a superlotação do transporte público que inviabilizaria a chegada da mão de obra a seu destino e o fim das happy hours e atividades de lazer noturnas durante a semana. Ambas as consequências afetariam diretamente os interesses do capital (proprietários dos negócios, empresas, e o mercado do lazer – bares, cerveja, etc.). No segundo caso, o mercado também ver-se-ia afetado pelas perturbações provocadas pelos atrasos. Certamente, se tomo essa decisão isoladamente, o problema será facilmente sanado pela contratação de outro funcionário com competências similares que não tenha tido a “exótica” ideia de abdicar do carro. Mas isto feito com o respaldo de um movimento articulado ganha outro tipo de conotação. Enfim, da palavra à ação o passo é pequeno, resta saber quem de fato deseja as transformações, quem de fato aceita os sacrifícios da nova "guerrilha".
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segunda-feira, 9 de março de 2009
Crise, qual crise?
"Creio que dormi tempo demais e perdi o momento em que a América Latina saiu da crise, para agora poder dizer que entrou em crise. Tempo demais para ver o dia em que a África chegou ao status de um continente que pode finalmente afirmar 'estamos em crise'. Acordei justamente com os alaridos de Lula, hoje presidente, ensinando a Bush, mas já alvejando Obama, que o capital deve ter origem no trabalho. Chega de capital especulativo! Clamores, tambores, tamborins, chegou o Carnaval.
De novo todos apontam o dedo para a superfície como se identificassem a causa, alvoroçam-se com a marola para não olhar para os estragos na placa tectônica. Mas como não sou geólogo, vamos direto ao ponto. Lula, Bush, Obama, Osama, Microsoft, Google, são todos cogumelos parasitas de uma mesma árvore cujo tronco está por ruir.
Não é o mercado financeiro, antro de pecadores e hereges que se travestiram em ternos e gravatas de prósperos investidores, o culpado de tudo. Isto é mais um dos efeitos. A 'crise' está no próprio esgotamento de um modelo de produção que já não precisa de trabalhadores, mas não pode dispensar os consumidores. Como cultivá-los? De onde tirá-los? Basta expandir a sua lógica de produção infinita ao todas as esferas da vida, aos serviços, às artes, às apostas. Mas eis que isso só não se sustenta e a 'crise' é postergada a cada pacotão se 'agrava'. Mas não há motivo para pânico, dizem os economistas, especialistas em quimeras, alquimistas do capital, no terceiro trimestre do ano tudo voltará ao normal. Mais um pouco de seiva injetada no putrificado tronco. Mas não há motivo para pânico, digo eu, Johann, afinal, o pior que pode acontecer é a árvore ruir de vez."
Citação de Johann Von Basten Moreira da Silva Andrade Neves *
NEVES, Johann V. B. M. S. A., "Eu tenho todas as respostas, mas não me pergunte nada", Editora Basten S.A., São Paulo, SP; p. 744
De novo todos apontam o dedo para a superfície como se identificassem a causa, alvoroçam-se com a marola para não olhar para os estragos na placa tectônica. Mas como não sou geólogo, vamos direto ao ponto. Lula, Bush, Obama, Osama, Microsoft, Google, são todos cogumelos parasitas de uma mesma árvore cujo tronco está por ruir.
Não é o mercado financeiro, antro de pecadores e hereges que se travestiram em ternos e gravatas de prósperos investidores, o culpado de tudo. Isto é mais um dos efeitos. A 'crise' está no próprio esgotamento de um modelo de produção que já não precisa de trabalhadores, mas não pode dispensar os consumidores. Como cultivá-los? De onde tirá-los? Basta expandir a sua lógica de produção infinita ao todas as esferas da vida, aos serviços, às artes, às apostas. Mas eis que isso só não se sustenta e a 'crise' é postergada a cada pacotão se 'agrava'. Mas não há motivo para pânico, dizem os economistas, especialistas em quimeras, alquimistas do capital, no terceiro trimestre do ano tudo voltará ao normal. Mais um pouco de seiva injetada no putrificado tronco. Mas não há motivo para pânico, digo eu, Johann, afinal, o pior que pode acontecer é a árvore ruir de vez."
Citação de Johann Von Basten Moreira da Silva Andrade Neves *
NEVES, Johann V. B. M. S. A., "Eu tenho todas as respostas, mas não me pergunte nada", Editora Basten S.A., São Paulo, SP; p. 744
Revolucionários...
“Revolucionários (ou revoltados) há de dois tipos:
Os de classe média, brancos, que remoem a culpa até vomitá-la em palavras enjoativas. Em geral, recorrem à ironia na esperança de não cometer a indignidade de falar pelos outros. Deus os livre. Denunciam a petulância e satirizam sua própria condição.
Os intelectuais das classes baixas. Em geral, são toscos, proferem inúmeras nescidades e frases copiadas no intento de soar tão “lúcidos” como os de classe média. Reproduzem os esquemas de enunciação e estruturação dos documentários da TV Cultura. Os primeiros, também não são tão mais brilhantes, buscam sua fonte de inspiração em qualquer intelectual francês da hora.
Outros, ainda, aparecem nas classes baixas. São os que renunciam ao verbo e procuram outras formas de expressão, diferentes das dominantes. Em geral, remetem ao "primitivo", recorrem a gritos, sons guturais, gestos desmesurados, olhos esbugalhados, etc. Mas ainda mais grotesco é quando os intelectuais da classe média se encantam com estes tipos e passam a reproduzir em esferas mais elevadas da cultura aqueles rituais bestializados, alegando tratar-se de uma forma de resistência mais autêntica.
ENFIM, QUANTA INÉPCIA!”
Citação de Johann Von Basten Moreira da Silva Andrade Neves *
NEVES, Johann V. B. M. S. A., "Eu tenho todas as respostas, mas não me pergunte nada", Editora Basten S.A., São Paulo, SP; p. 579
Os de classe média, brancos, que remoem a culpa até vomitá-la em palavras enjoativas. Em geral, recorrem à ironia na esperança de não cometer a indignidade de falar pelos outros. Deus os livre. Denunciam a petulância e satirizam sua própria condição.
Os intelectuais das classes baixas. Em geral, são toscos, proferem inúmeras nescidades e frases copiadas no intento de soar tão “lúcidos” como os de classe média. Reproduzem os esquemas de enunciação e estruturação dos documentários da TV Cultura. Os primeiros, também não são tão mais brilhantes, buscam sua fonte de inspiração em qualquer intelectual francês da hora.
Outros, ainda, aparecem nas classes baixas. São os que renunciam ao verbo e procuram outras formas de expressão, diferentes das dominantes. Em geral, remetem ao "primitivo", recorrem a gritos, sons guturais, gestos desmesurados, olhos esbugalhados, etc. Mas ainda mais grotesco é quando os intelectuais da classe média se encantam com estes tipos e passam a reproduzir em esferas mais elevadas da cultura aqueles rituais bestializados, alegando tratar-se de uma forma de resistência mais autêntica.
ENFIM, QUANTA INÉPCIA!”
Citação de Johann Von Basten Moreira da Silva Andrade Neves *
NEVES, Johann V. B. M. S. A., "Eu tenho todas as respostas, mas não me pergunte nada", Editora Basten S.A., São Paulo, SP; p. 579
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Comentário sobre "Nada de novo, uma ova"
O comentário a seguir foi inspirado no texto Nada de novo, uma ova (http://contoseafinslucianesilva.blogspot.com/2009/01/nada-de-novo-uma-ova.html), de Luciane Silva. Achei o tema instigante e.... blabla... segue o comentário. Obrigado, Luciane.
Concordo em grande parte com o que você coloca sobre a cegueira atual ao não reconhecer o novo, talvez até por não reconhecer a arte como um processo histórico cujo exame requer certo distanciamento. Reflete também, a meu ver, uma postura muito defendida pelos “pós-modernistas”, especialmente Jameson quem pressupõe que os estilos contemporâneos cheios de anacronismos e pastichos têm sua origem na impossibilidade de criar algo novo.
Penso eu que, de fato, é difícil imaginar hoje inovações estilísticas que irrompam violentamente dentre o ecletismo, a pluralidade e o hibridismo das produções culturais atuais. No entanto, este tipo de postura arroga à contemporaneidade um status de completude que descarta a possibilidade de uma história-devir, atribuindo-lhe um peso museológico que contemplaríamos do alto de nossa integridade. É um contra-senso imaginar que uma inovação possa ser vislumbrada a priori, ela sempre será identificada a posteriori quando já fizer parte de nossa coleção de estilos reconhecíveis, caso contrário não será de fato uma inovação. Profetizar sobre inovações estilísticas é possível em qualquer época, prevê-las com certeza, não.
Por outro lado, acredito que a postura de negar o surgimento do novo na arte tem muito a ver com o fato de esta também constituir um saber sujeito a inúmeras relações de poder, que em seu belicoso desdobramento encontram mais facilidade em atribuir valor a uma obra de arte extemporânea – à qual se possa aferrar como ícone seminal que repousa à nascente de tradições que possam legitimar uma determinada postura ou estilo – que em dialogar com o contemporâneo.
De qualquer maneira, acho prudente desconfiar sempre tanto do neofilismo exasperado que se apressa em reconhecer o caráter revolucionário de qualquer evento, obra, acontecimento e se vê sempre às turras para cunhar um novo termo, em geral um aglomerado de prefixos “pós-pós-pós”, quanto daquelas mais conservadoras que se anegam no passado em busca de legitimação. Nesse sentido, compreendo que o universal, ao qual você se refere, não reside em uma essência imutável à qual determinados artistas teriam um acesso privilegiado. O universal é constantemente redefinido dentro do contexto de tais relações de poderes e saberes e, desta forma, tem restituído seu historicismo.
Concordo em grande parte com o que você coloca sobre a cegueira atual ao não reconhecer o novo, talvez até por não reconhecer a arte como um processo histórico cujo exame requer certo distanciamento. Reflete também, a meu ver, uma postura muito defendida pelos “pós-modernistas”, especialmente Jameson quem pressupõe que os estilos contemporâneos cheios de anacronismos e pastichos têm sua origem na impossibilidade de criar algo novo.
Penso eu que, de fato, é difícil imaginar hoje inovações estilísticas que irrompam violentamente dentre o ecletismo, a pluralidade e o hibridismo das produções culturais atuais. No entanto, este tipo de postura arroga à contemporaneidade um status de completude que descarta a possibilidade de uma história-devir, atribuindo-lhe um peso museológico que contemplaríamos do alto de nossa integridade. É um contra-senso imaginar que uma inovação possa ser vislumbrada a priori, ela sempre será identificada a posteriori quando já fizer parte de nossa coleção de estilos reconhecíveis, caso contrário não será de fato uma inovação. Profetizar sobre inovações estilísticas é possível em qualquer época, prevê-las com certeza, não.
Por outro lado, acredito que a postura de negar o surgimento do novo na arte tem muito a ver com o fato de esta também constituir um saber sujeito a inúmeras relações de poder, que em seu belicoso desdobramento encontram mais facilidade em atribuir valor a uma obra de arte extemporânea – à qual se possa aferrar como ícone seminal que repousa à nascente de tradições que possam legitimar uma determinada postura ou estilo – que em dialogar com o contemporâneo.
De qualquer maneira, acho prudente desconfiar sempre tanto do neofilismo exasperado que se apressa em reconhecer o caráter revolucionário de qualquer evento, obra, acontecimento e se vê sempre às turras para cunhar um novo termo, em geral um aglomerado de prefixos “pós-pós-pós”, quanto daquelas mais conservadoras que se anegam no passado em busca de legitimação. Nesse sentido, compreendo que o universal, ao qual você se refere, não reside em uma essência imutável à qual determinados artistas teriam um acesso privilegiado. O universal é constantemente redefinido dentro do contexto de tais relações de poderes e saberes e, desta forma, tem restituído seu historicismo.
domingo, 19 de outubro de 2008
Machan e o Sri Lanka... alguns comentários
Assisti este domingo a um filme dirigido pelo produtor de “The Full Monty”, traduzido no Brasil como “Ou tudo ou nada”. Este novo filme também se volta a problemas sociais, desemprego e miséria, mas traz como grande aval um “based on a true story". “Machan” (http://www.mostra.org/32/exib_filme.php?filme=446) é uma ficção sobre o episódio em que 23 srilanqueses conseguiram o visto para a Alemanha fingindo ser da federação nacional de handebol do país. Por tratar-se da mostra internacional, tivemos a sorte de contar com a presença de Uberto Pasolini, o diretor, para uma conversa no final da exibição.
O filme é envolvente e muito bem feito, mas como não poderia ser diferente, sinto-me tentado a problematizar sobre o tema. Para tanto, deverei comentar algumas das cenas, razão pela qual sugiro a quem quer que possa estar lendo que não siga adiante se pretender assistir ao filme ou retome a leitura após fazê-lo. Não pouparei nem o “segredo do mordomo", pois não desejo resenhar o filme, mas sim comentar o que me deixou contrariado.
Gostei do filme. O diretor entrou na sala, figura simpática, italiano, londrino, esforçava-se em um misto de português, italiano, espanhol, mas terminou por falar em inglês. A história foi verídica, 23 srilanqueses desapareceram na Alemanha depois de enganar a imigração fazendo-se passar por um time de handebol convidado a disputar um torneio na Bavária. Essa é a primeira informação. Pasolini logo retira de sua pasta uma cópia de um artigo de jornal do Sri Lanka que elogia o filme, enfatizando que se tratava de uma verdadeira produção srilanquesa, nem sequer mencionava o nome do diretor, o que, aliás, ele considera fantástico. Isso foi possível graças a alguns meses de pesquisa com moradores das favelas do país, que dariam origem aos personagens. Enfim, mostrava-se bastante feliz em ver que o filme não tinha "um olhar ocidental".
Segundo artigo a sair da pasta do diretor: a notícia que deu origem ao filme que, com tom irônico, contava que os 23 jogadores da equipe nacional do Sri Lanka de handebol haviam desaparecido na Alemanha, mas o detalhe era que o país não possuía tal equipe. A notícia caíra nas mãos de Pasolini no dia em que o filme que produziria com Russel Crowe e Nicole Kidman fora cancelado porque o ator não podia nem ver o diretor. Portanto, decidiu fazer o filme o mais longe possível de Hollywood... Sri Lanka.
Mini-sinopse: Dois amigos, cansados de terem o visto negado para a Alemanha, encontram um panfleto convidando times do Sri Lanka para um torneio amistoso na Bavária. Um dos amigos agravou a situação de sua família, ao entregar suas economias a um pilantra que prometia tirar as pessoas do país e mandá-las para a Europa. O outro trabalha em um hotel, no qual vemos os nativos servis abaixarem a cabeça enquanto brancos refocilam no luxuoso ambiente. Os demais personagens têm situação semelhante, habitando favelas em condições “subumanas”. Durante a conversa, o diretor esclarece que todos os personagens foram inventados, visto que os 23 desapareceram na Europa, portanto, tinha decidido criá-los a partir do que constatou durante as já referidas pesquisas. Em outro esclarecimento importante o diretor explica que preferiu tratar o assunto com humor, com leveza, pois não o via como um melodrama.
Diante da miríade de filmes europeus mostrando a situação cada vez mais inflamável dos imigrantes no velho continente, é interessante ver esta trama em que personagens miseráveis circulam entre a lama das favelas e subempregos e pensam somente em viajar ao exterior para mandar dinheiro para o restante da família. Os caminhos possíveis são a criminalidade, os subempregos ou a emigração. Às peripécias para a obtenção do visto do grupo assistimos numa espécie de torcida empática esperando que a façanha se concretize. No fim, a vitória se dá. Os personagens conseguem chegar a Bavária, no aeroporto, suspense. Antes de conseguirem fugir, são “acolhidos” por simpáticos alemães que os conduzem à região do torneio. São obrigados a jogar, fato com o qual não contavam, e denunciados por sua falta de conhecimento sobre o jogo quase são apanhados, mas finalmente escapam. Há mais nuances e matizes, relações interessantes entre os personagens, mas o que interessa aqui é o clima de vitória que remanesce ao fim da aventura. Foi, de fato, a vitória de 23 oprimidos, foi, contudo, a derrota de toda uma nação. O filme constitui uma espécie de “inversão do oprimido”, bem conhecida, aliás, aqui no Brasil, no termo “jeitinho brasileiro”. Trata-se do louvor à astúcia que permite que indivíduos em uma situação desfavorável superem inimigos supostamente invencíveis. Sempre contam com nossa torcida... Mas aí reside a armadilha. Parece uma espécie de catarse que dá ao oprimido a ilusão da vitória, a vitória simbólica, serve, ainda, ao opressor cuja derrota, também simbólica, pode ser graciosa e o status quo se mantém harmoniosamente. Há dois personagens no filme que, de certa forma (superficial), apontam para esta questão. Um deles é o pai de um dos personagens, membro de um partido que tenta convencer sem sucesso o idealizador do plano a desistir de emigrar e ficar no país para transformá-lo. Não recebe créditos nem sequer de seu filho que ao final também emigra. O outro personagem é um pouco mais complexo, pois se trata do vigésimo quarto jogador, aquele que desistiu. Por ser “uma história real”, perguntei ao diretor quem era esse personagem, o que significava, pois evidentemente não existira. A resposta estava de alguma maneira no filme. É "o personagem que faz o certo" nos diz um dos outros 23 personagens. Circunstanciemos, porém, o motivo que o faz desistir de emigrar. Manoj é barman de um luxuoso hotel e, quando obtém o visto, ganha da gerência um jantar no restaurante para despedir-se de sua numerosa família. Sua família, porém, passa por momentos de constrangimento observando os preços nos cardápios e cercados por turistas que lhes lançavam olhares curiosos. Manoj vai ao balcão pedir umas bebidas e ouve dois jovens estrangeiros comentarem ironicamente "Parece que alguém ganhou na loteria". A expressão de Manoj se altera, esperamos uma reação a la “Daniel San", uma irrupção de violência ou algo, mas não é esse tipo de filme. O episódio serve para que ele desista de abandonar o país e a justificativa, diante do amigo incrédulo é: "Ontem olhei para minha família e me envergonhei deles, não quero que isso aconteça".
A resposta de Pasolini a minha pergunta endossou a justificativa de Manoj. Contou-me que ouviu em suas pesquisas muitos casos de pessoas que voltavam do exterior e não conseguiam se readaptar, não eram capazes de aceitar sua própria família e terminavam por emigrar novamente. Foi uma forma que encontrou de colocar esse “tipo” na trama, já que nenhum dos 23 poderia voltar.
Sem conhecer o Sri Lanka, admito até que precisei confirmar no dicionário sua grafia, atrevo-me a contradizer o artigo do jornal local que considera o filme uma produção genuinamente nacional, reconhecendo-se na trama. O olhar ocidental está presente do início ao fim, mas nem por isso é menos srilanquês, o olhar ocidental está incrustado em cada uma das tábuas que servem de ponte sobre as poças cloacais das favelas. Está em todas as partes no filme e na sociedade que emigra. O olhar ocidental reside na própria iniciativa de fazer o filme, com humor, com leveza, do simpático ítalo-londrino ao ler a hilária notícia do jornal australiano ou britânico. Um filme que fala sobre a emigração a partir do louvor a essa astúcia do derrotado que encontra o subterfúgio para vencer ocasionalmente, garantindo a catarse do público ávido público paulistano que agora sabe que lá como aqui há favelas, lá como aqui há um desespero por sair do país em busca das oportunidades do velho mundo e que “nada mais se pode fazer".
O filme é interessante em minha opinião, em vários momentos as cenas parecem tentar explicar demais (quase "sociologizar”), mas tudo bem... O problema maior está em sua premissa, a qual podemos ilustrar com outra seqüência e o correlato comentário do diretor. No luxuoso hotel, outro personagem trabalha como faxineiro. Em uma determinada cena, este vai ao banheiro do hotel e mantém-se com a cabeça abaixada enquanto um turista termina de lavar as mãos. No quadro ainda encontra-se outro empregado, mais idoso, cuja função era segurar a toalha para que o turista secasse sua mão. Depois de uma determinada passagem de tempo, o personagem volta a entrar no banheiro e, em vez de seu colega "segurador de toalhas", encontra dois jovens instalando um secador de mão na parede, a mesma parede em que ficava seu velho colega. À noite, revoltado, queixa-se com a mulher: "depois de 30 anos, eles o mandam embora e ainda instalam o secador na parede que tem a marca da cabeça do (....) e o secador nem seca nada”. Esta revolta aflora novamente mais ao final do filme quando esse mesmo personagem, antes de emigrar, volta ao banheiro do hotel e destrói o secador. Voltamos a destruir as máquinas. Pasolini, na conversa, explica que aquela cena foi criada para mostrar como algo simplesmente chega do ocidente e altera a vida daquelas pessoas desse modo. Novamente, insisto o “tal ocidente” está em cada parte de nossas misérias, não se separa do nosso jeito “autóctone” de ser brasileiro ou srilanquês, e podemos muito bem servir-nos dos “práticos e luxuosos” secadores de mão. O problema não está na tecnologia, não quebremos as máquinas, está em como nos apropriamos da miséria e aceitamos o “tal olhar ocidental”. Foi curioso imaginar que um desses turistas do hotel foi o próprio diretor do filme, quem corroborou que, de fato, hospedou-se no hotel que serviu de locação. Sempre fui extremamente favorável ao humor e à leveza para tratar temas suficientemente dramáticos, pois vejo nele uma forma de fazer com que o fato, às vezes demais cruento, chegue ao espectador. Mas começo a pensar, se não possui um efeito colateral de tornar digerível algo absolutamente dispéptico que não deveríamos, em circunstância alguma, tolerar. Enfim, gostei do filme... por isso mesmo, quis questioná-lo, questionar a mim mesmo, descobrindo quais são seus méritos, mas também seus riscos. O filme colhe seus prêmios, os 23 emigrados perdem-se na vida européia, (venderão kebabs?), e o Sri Lanka?
O filme é envolvente e muito bem feito, mas como não poderia ser diferente, sinto-me tentado a problematizar sobre o tema. Para tanto, deverei comentar algumas das cenas, razão pela qual sugiro a quem quer que possa estar lendo que não siga adiante se pretender assistir ao filme ou retome a leitura após fazê-lo. Não pouparei nem o “segredo do mordomo", pois não desejo resenhar o filme, mas sim comentar o que me deixou contrariado.
Gostei do filme. O diretor entrou na sala, figura simpática, italiano, londrino, esforçava-se em um misto de português, italiano, espanhol, mas terminou por falar em inglês. A história foi verídica, 23 srilanqueses desapareceram na Alemanha depois de enganar a imigração fazendo-se passar por um time de handebol convidado a disputar um torneio na Bavária. Essa é a primeira informação. Pasolini logo retira de sua pasta uma cópia de um artigo de jornal do Sri Lanka que elogia o filme, enfatizando que se tratava de uma verdadeira produção srilanquesa, nem sequer mencionava o nome do diretor, o que, aliás, ele considera fantástico. Isso foi possível graças a alguns meses de pesquisa com moradores das favelas do país, que dariam origem aos personagens. Enfim, mostrava-se bastante feliz em ver que o filme não tinha "um olhar ocidental".
Segundo artigo a sair da pasta do diretor: a notícia que deu origem ao filme que, com tom irônico, contava que os 23 jogadores da equipe nacional do Sri Lanka de handebol haviam desaparecido na Alemanha, mas o detalhe era que o país não possuía tal equipe. A notícia caíra nas mãos de Pasolini no dia em que o filme que produziria com Russel Crowe e Nicole Kidman fora cancelado porque o ator não podia nem ver o diretor. Portanto, decidiu fazer o filme o mais longe possível de Hollywood... Sri Lanka.
Mini-sinopse: Dois amigos, cansados de terem o visto negado para a Alemanha, encontram um panfleto convidando times do Sri Lanka para um torneio amistoso na Bavária. Um dos amigos agravou a situação de sua família, ao entregar suas economias a um pilantra que prometia tirar as pessoas do país e mandá-las para a Europa. O outro trabalha em um hotel, no qual vemos os nativos servis abaixarem a cabeça enquanto brancos refocilam no luxuoso ambiente. Os demais personagens têm situação semelhante, habitando favelas em condições “subumanas”. Durante a conversa, o diretor esclarece que todos os personagens foram inventados, visto que os 23 desapareceram na Europa, portanto, tinha decidido criá-los a partir do que constatou durante as já referidas pesquisas. Em outro esclarecimento importante o diretor explica que preferiu tratar o assunto com humor, com leveza, pois não o via como um melodrama.
Diante da miríade de filmes europeus mostrando a situação cada vez mais inflamável dos imigrantes no velho continente, é interessante ver esta trama em que personagens miseráveis circulam entre a lama das favelas e subempregos e pensam somente em viajar ao exterior para mandar dinheiro para o restante da família. Os caminhos possíveis são a criminalidade, os subempregos ou a emigração. Às peripécias para a obtenção do visto do grupo assistimos numa espécie de torcida empática esperando que a façanha se concretize. No fim, a vitória se dá. Os personagens conseguem chegar a Bavária, no aeroporto, suspense. Antes de conseguirem fugir, são “acolhidos” por simpáticos alemães que os conduzem à região do torneio. São obrigados a jogar, fato com o qual não contavam, e denunciados por sua falta de conhecimento sobre o jogo quase são apanhados, mas finalmente escapam. Há mais nuances e matizes, relações interessantes entre os personagens, mas o que interessa aqui é o clima de vitória que remanesce ao fim da aventura. Foi, de fato, a vitória de 23 oprimidos, foi, contudo, a derrota de toda uma nação. O filme constitui uma espécie de “inversão do oprimido”, bem conhecida, aliás, aqui no Brasil, no termo “jeitinho brasileiro”. Trata-se do louvor à astúcia que permite que indivíduos em uma situação desfavorável superem inimigos supostamente invencíveis. Sempre contam com nossa torcida... Mas aí reside a armadilha. Parece uma espécie de catarse que dá ao oprimido a ilusão da vitória, a vitória simbólica, serve, ainda, ao opressor cuja derrota, também simbólica, pode ser graciosa e o status quo se mantém harmoniosamente. Há dois personagens no filme que, de certa forma (superficial), apontam para esta questão. Um deles é o pai de um dos personagens, membro de um partido que tenta convencer sem sucesso o idealizador do plano a desistir de emigrar e ficar no país para transformá-lo. Não recebe créditos nem sequer de seu filho que ao final também emigra. O outro personagem é um pouco mais complexo, pois se trata do vigésimo quarto jogador, aquele que desistiu. Por ser “uma história real”, perguntei ao diretor quem era esse personagem, o que significava, pois evidentemente não existira. A resposta estava de alguma maneira no filme. É "o personagem que faz o certo" nos diz um dos outros 23 personagens. Circunstanciemos, porém, o motivo que o faz desistir de emigrar. Manoj é barman de um luxuoso hotel e, quando obtém o visto, ganha da gerência um jantar no restaurante para despedir-se de sua numerosa família. Sua família, porém, passa por momentos de constrangimento observando os preços nos cardápios e cercados por turistas que lhes lançavam olhares curiosos. Manoj vai ao balcão pedir umas bebidas e ouve dois jovens estrangeiros comentarem ironicamente "Parece que alguém ganhou na loteria". A expressão de Manoj se altera, esperamos uma reação a la “Daniel San", uma irrupção de violência ou algo, mas não é esse tipo de filme. O episódio serve para que ele desista de abandonar o país e a justificativa, diante do amigo incrédulo é: "Ontem olhei para minha família e me envergonhei deles, não quero que isso aconteça".
A resposta de Pasolini a minha pergunta endossou a justificativa de Manoj. Contou-me que ouviu em suas pesquisas muitos casos de pessoas que voltavam do exterior e não conseguiam se readaptar, não eram capazes de aceitar sua própria família e terminavam por emigrar novamente. Foi uma forma que encontrou de colocar esse “tipo” na trama, já que nenhum dos 23 poderia voltar.
Sem conhecer o Sri Lanka, admito até que precisei confirmar no dicionário sua grafia, atrevo-me a contradizer o artigo do jornal local que considera o filme uma produção genuinamente nacional, reconhecendo-se na trama. O olhar ocidental está presente do início ao fim, mas nem por isso é menos srilanquês, o olhar ocidental está incrustado em cada uma das tábuas que servem de ponte sobre as poças cloacais das favelas. Está em todas as partes no filme e na sociedade que emigra. O olhar ocidental reside na própria iniciativa de fazer o filme, com humor, com leveza, do simpático ítalo-londrino ao ler a hilária notícia do jornal australiano ou britânico. Um filme que fala sobre a emigração a partir do louvor a essa astúcia do derrotado que encontra o subterfúgio para vencer ocasionalmente, garantindo a catarse do público ávido público paulistano que agora sabe que lá como aqui há favelas, lá como aqui há um desespero por sair do país em busca das oportunidades do velho mundo e que “nada mais se pode fazer".
O filme é interessante em minha opinião, em vários momentos as cenas parecem tentar explicar demais (quase "sociologizar”), mas tudo bem... O problema maior está em sua premissa, a qual podemos ilustrar com outra seqüência e o correlato comentário do diretor. No luxuoso hotel, outro personagem trabalha como faxineiro. Em uma determinada cena, este vai ao banheiro do hotel e mantém-se com a cabeça abaixada enquanto um turista termina de lavar as mãos. No quadro ainda encontra-se outro empregado, mais idoso, cuja função era segurar a toalha para que o turista secasse sua mão. Depois de uma determinada passagem de tempo, o personagem volta a entrar no banheiro e, em vez de seu colega "segurador de toalhas", encontra dois jovens instalando um secador de mão na parede, a mesma parede em que ficava seu velho colega. À noite, revoltado, queixa-se com a mulher: "depois de 30 anos, eles o mandam embora e ainda instalam o secador na parede que tem a marca da cabeça do (....) e o secador nem seca nada”. Esta revolta aflora novamente mais ao final do filme quando esse mesmo personagem, antes de emigrar, volta ao banheiro do hotel e destrói o secador. Voltamos a destruir as máquinas. Pasolini, na conversa, explica que aquela cena foi criada para mostrar como algo simplesmente chega do ocidente e altera a vida daquelas pessoas desse modo. Novamente, insisto o “tal ocidente” está em cada parte de nossas misérias, não se separa do nosso jeito “autóctone” de ser brasileiro ou srilanquês, e podemos muito bem servir-nos dos “práticos e luxuosos” secadores de mão. O problema não está na tecnologia, não quebremos as máquinas, está em como nos apropriamos da miséria e aceitamos o “tal olhar ocidental”. Foi curioso imaginar que um desses turistas do hotel foi o próprio diretor do filme, quem corroborou que, de fato, hospedou-se no hotel que serviu de locação. Sempre fui extremamente favorável ao humor e à leveza para tratar temas suficientemente dramáticos, pois vejo nele uma forma de fazer com que o fato, às vezes demais cruento, chegue ao espectador. Mas começo a pensar, se não possui um efeito colateral de tornar digerível algo absolutamente dispéptico que não deveríamos, em circunstância alguma, tolerar. Enfim, gostei do filme... por isso mesmo, quis questioná-lo, questionar a mim mesmo, descobrindo quais são seus méritos, mas também seus riscos. O filme colhe seus prêmios, os 23 emigrados perdem-se na vida européia, (venderão kebabs?), e o Sri Lanka?
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Comentários sobre um certo artigo
Segue um curto comentário, pois não acho que pague a pena (ou a tecla) gastar mais que um parágrafo com ele, sobre o artigo do gaspari que se encontra no link: http://www.bemparana.com.br/redacao/index.php/2007/12/26/gaspari-seria-melhor-se-1968-nao-tivesse-existido/
É curioso o que um olhar anacrônico e enviesado é capaz de fazer com a história. Na opinião do colunista 68 nada mais foi que teoria, enquanto 89 foi o pragmático fim do imperialismo soviético e do correlato “autoritarismo das esquerdas”. Todas as ditaduras latino-americanas, anteriores mesmo a 68 - pensemos em Trujillo na República Dominicana - e posteriores que contaram com o franco (leia-se econômico e militar) apoio do Império norte-americano, são irrelevantes a partir dessa perspectiva. Mas o pior aspecto deste tipo de leitura é que ignora a conjuntura atual, ao louvar o triunfo de um sistema. O colapso do sistema soviético inumou de vez o que restava do "sonho daquela esquerda autoritária", mas certamente não eliminou as inquietações que o motivavam. A tortura institucionalizada persiste, a desigualdade social é ainda mais acentuada, os índices nos mostram um aumento da classe média tomando como único parâmetro o nível do consumo, as mulheres continuam em maior situação de pobreza, a equiparação de salários deve-se mais ao decréscimo salarial dos homens, os negros continuam em situação absolutamente desfavorável, a educação (mais vagas nas universidades!) continua elitista e servindo como um instrumento de segregação. Se 68 foi teoria, foi sonho, não se opõe a um pragmatismo de um sistema que triunfou, mas sim a uma visão de mundo, a uma teoria, a um sonho que reina inabalável, o da perpetuação de um sistema que se alicerça na desigualdade, na exploração e na dominação.
É curioso o que um olhar anacrônico e enviesado é capaz de fazer com a história. Na opinião do colunista 68 nada mais foi que teoria, enquanto 89 foi o pragmático fim do imperialismo soviético e do correlato “autoritarismo das esquerdas”. Todas as ditaduras latino-americanas, anteriores mesmo a 68 - pensemos em Trujillo na República Dominicana - e posteriores que contaram com o franco (leia-se econômico e militar) apoio do Império norte-americano, são irrelevantes a partir dessa perspectiva. Mas o pior aspecto deste tipo de leitura é que ignora a conjuntura atual, ao louvar o triunfo de um sistema. O colapso do sistema soviético inumou de vez o que restava do "sonho daquela esquerda autoritária", mas certamente não eliminou as inquietações que o motivavam. A tortura institucionalizada persiste, a desigualdade social é ainda mais acentuada, os índices nos mostram um aumento da classe média tomando como único parâmetro o nível do consumo, as mulheres continuam em maior situação de pobreza, a equiparação de salários deve-se mais ao decréscimo salarial dos homens, os negros continuam em situação absolutamente desfavorável, a educação (mais vagas nas universidades!) continua elitista e servindo como um instrumento de segregação. Se 68 foi teoria, foi sonho, não se opõe a um pragmatismo de um sistema que triunfou, mas sim a uma visão de mundo, a uma teoria, a um sonho que reina inabalável, o da perpetuação de um sistema que se alicerça na desigualdade, na exploração e na dominação.
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