sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Sobre os comentários de Lars Von Trier

"Grace sabe exatamente o que pensa sobre a democracia. Ela acredita saber exatamente como as pessoas deveriam viver. Porém, ela não tenta perceber o que seria a democracia do ponto de vista dos escravos. O que acontece com estas pessoas se trata de uma educação política e moral. O paralelo que se faz com o Iraque é evidente. Estou convencido que também no Iraque do Sadam Hussein existe uma moral. Obviamente extinta esta moral muitas pessoas se verão encarceradas. Mas não se pode abolir as velhas regras. E simplesmente colocar novas regras e acreditar que isto irá funcionar. Tradições morais tem que ser desenvolvidas socialmente. E eu acho cada vez mais espantoso, que nós pensamos que a nossa maneira com o qual nos organizamos socialmente seja a única correta."

Lars Von Tier
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Achei interessante esta colocação do Lars, especialmente levando em consideração as palavras ao final de Manderlay sobre a auto-emancipação. Mas reitero que cabe aqui uma reflexão sobre a nossa inserção em um sistema cuja estrutura tem uma integração que na superfície se dilui. "Acho cada vez mais espantoso que nós pensemos que a nossa maneira com a qual nos organizamos socialmente seja a única correta", diz Lars. Sim, concordo que é algo espantoso, mas não podemos de modo algum relevar nossos próprios valores enquanto interlocutores, pois isso nos conduziria a uma total inércia em relação a certas situações que, segundo tais valores, não poderíamos tolerar. Colocarei alguns exemplos concretos:

1 - Assisti há pouco tempo o filme Serras da Desordem, do Tonacci. O filme todo é muito bom, mas há um momento em particular em que foi possível sentir um calafrio generalizado entre o público. Em uma determinada seqüência, crianças indígenas com mais ou menos um ano de idade brincam com facas e objetos cortantes, diante do olhar passivo dos adultos. Ao término do filme, houve um debate com a presença do próprio Tonacci e uma das primeiras perguntas foi exatamente sobre esse episódio. Como ele, enquanto documentarista que, no entanto, não deixa de ser um indivíduo com olhar ocidental não se sentia impelido a tomar-lhes as facas? A resposta foi um pouco neste sentido, de não interferir com nossos valores, afinal, as crianças não se machucaram. Aprendiam a relacionar-se desde cedo com os instrumentos.

2 - Mas este caso levado a outros extremos, como podemos "obliterar” nossos valores em nome de uma convivência em comunidade? Se estamos em uma mesma comunidade, como posso conviver com alguém que, ao meu lado, espanque uma criança, por exemplo. Fechar os olhos e aceitar isto como “diferença cultural”, em minha opinião, não seria aceitável. Os direitos humanos são convenções estipuladas a partir de determinados valores (condensados em uma revolução, aliás), mas na ausência de qualquer outro valor que possa ser tido como netamente universal, a que podemos nos agarrar senão a nossos próprios valores? Agarrar-nos a nossos próprios valores não quer dizer, no entanto, defendê-los com unhas, dentes (e potentes mísseis), mas sim colocá-los no jogo dialógico entre culturas da forma mais horizontal possível. Difícil? Acredito que sim, principalmente quando os únicos critérios válidos nos processos decisórios passam a ser o poderio bélico e o econômico.

Cita Lars o caso do Iraque. Vale lembrar que o Iraque não existe nem existia no mundo como uma zona autóctone cujos valores discrepantes do "modelo democrático norte-americano” nascem de uma civilização absolutamente exótica. O Iraque faz parte da OPEP que, mediante acordos comandados principalmente pela Arábia Saudita com os Estados Unidos, mantiveram o sistema monetário dos petrodólares durante anos, uma moeda sem lastro cujo poderio se mantinha pela sua exclusividade na negociação do petróleo. Parece que o Iraque foi o primeiro a concordar em negociar o petróleo por euros, decisão que levaria à ruína o sistema monetário dos petrodólares. A represália foi imediata. Não sou perito no tema, tirei essas informações do link
http://resistir.info/europa/euro_dolar_port.html. Mas sem dúvida, isso me faz pensar que não estamos falando de valores (ao menos não de valores abstratos).
Falar em auto-emancipação, portanto, em um cenário como este implica também certos riscos. Não se trata de defender, de modo algum, o intervencionismo. Contudo, é necessário entender como os países (ou sociedades) envolvidos não estão isolados e se relacionam de forma muito mais complexa. A globalização não teve início com a difusão do McDonalds, há quem diga que remonta às primeiras navegações. Lars Von Trier diz, ainda, que velhas regras não podem ser abolidas para que seja instaurada uma moral nova e exógena. Mas tampouco se pode ignorar como as “velhas regras” existem e se reproduzem estabelecendo uma relação com determinados valores hegemônicos.


"Nenhuma cultura esta só; ela é sempre capaz de coligações com outras culturas, e e isso que lhe permite edificar séries cumulativas. A possibilidade que tem uma cultura de totalizar este conjunto complexo de invenções de todas as ordens que chamamos civilização e função do número e da diversidade das culturas com que ela participa na elaboração - na maioria das vezes involuntária - de uma estratégia comum."

Levi-Strauss

2 comentários:

Maurício Ayer disse...

caríssimo javier
este seu comentário ao comentário do lars dá pano pra manga. vamos por partes.

1. o exemplo do filme do tonacci me parece bastante distinto do que diz o lars. trata-se, claro, de um choque de cultura, ou seja, algo inaceitável para uma cultura é perfeitamente normal para outra. mas não creio que neste exemplo se trate de uma questão de valores, mas sim do modo como cuidamos de nossos bebês. não acho que aqueles pais e mães deixavam seus filhos brincar com facas por desleixo, mas sim porque eles consideram cabível que as crianças aprendam desde cedo a mexer com esses instrumentos.
isso não acontece apenas entre culturas tão distintas quanto a de nós ocidentais e este povo indígena específico. eu, como pai de um bebê, vivo isso constantemente. por exemplo, eu não uso carrinho, mas uma tipoia para carregar o meu bebê. isso incomoda muita gente, que acredita que o bebê está sendo esmagado, ou que tem algum problema com sua maternidade ou paternidade e acredita que deve interferir no modo como outros cuidam de seus filhos.

2. poderia citar um outro exemplo mais radical. a circuncisão feminina, praticada por alguns povos e que aterroriza a nós ocidentais. pode-se interpretar esta prática como um franco rebaixamento da mulher, um gesto simbólico que a submete a uma ordem masculina e machista. no entanto, simplesmente chegar lá com armas e ordens, baixando a regra de que não é mais permitida esta prática poderia deixar uma grande maioria de mulheres escandalizada, como de fato há exemplos que comprovam. esse tipo de intervencionismo imperialista justificou a violência imperialista da Inglaterra durante todo o século XIX e ainda hoje os inglesinhos aprendem na escola que o seu país foi o grande libertador do mundo.
toda ação opressora e imperialista, além da força das armas, terá de se justificar simbolicamente por valores que estejam acima do respeito entre os o direito dos povos de se autorregular e, mesmo, de dialogar soberanamente. os "direitos humanos", assim como "a civilização", "a salvação das almas", "deus" e outros tantos valores universais têm sido usados para justificar as maiores atrocidades. pra citar um exemplo bem atual, isso está constantemente no discurso do governo israelense, que para matar um criminoso (que é dado como tal, mas nunca foi a julgamento) trucida toda a sua família, as famílias dos seus vizinhos, e de todo o seu quarteirão.

3. voltemos ao caso do iraque. é mais do que sabido que quem criou sadam hussein foram os próprios estados unidos, que o armaram e fortaleceram para a guerra contra o irã. os eua foram participantes ativos na destruição das bases democráticas do iraque, sustentando a perseguição e a tortura de opositores ao regime, e também fornecendo as armas usadas em genocídios contra os curdos, por exemplo. voltando ainda mais atrás, essa situação aparentemente insolúvel no oriente médio tem origem na divisão territorial que ali realizou novamente a inglaterra, um século antes, fomentando guerras e criando cisões onde não havia.
no momento em que a coisa se inverte, e saddam passa a ser o inimigo número 1 dos eua, eles patrocinam um embargo econômico que só castigou cruelmente a população iraquiana fortalecendo o ódio aos estados unidos e ampliando as bases para o desenvolvimento das soluções radicais iradas e irracionais (bem diferente das soluções radicais revolucionárias).

4. assim, ninguém menos capacitado a intervir pela democratização do iraque do que os eua. e é aqui que eu acho que entra o comentário do lars, essa comparação com Manderlay. grace tem a certeza do que sejam valores universais a serem promovidos, mesmo convivendo com as práticas pouco morais de seu pai, com quem tem uma relação de menina mimada, que contesta mas recorre a ele sempre que necessário, com mil chantagens emocionais etc.
a imposição da democracia pelas armas tem um pouco esse caráter. o povo americano é um povo mimado, totalmente incapacitado ao diálogo, que ganha tudo o que quer, consome tudo o que quer, e sem ter tido qualquer prática real de diálogo e de contato intercultural aprende na escola quais são os valores universais que deve (pelo desígnio de seu destino, sagrado e histórico), pelo convencimento ou pela força, espalhar pelo mundo.
trata-se de um grande cinismo, evidentemente, pois é perfeitamente possível aos eua apoiar uma ditadura aqui e derrubar outra ali, quando vemos claramente os interesses geopolíticos ou econômicos que de fato movem essas ações. mas o povo, mimado pela mídia, pelo governo etc., acredita que seu país está fazendo bem ao mundo, mesmo que muitas vezes incompreendido.

5. me parece sintomático que grace assuma uma posição pedagógica no filme. num dado momento, ela percebe que vai ter que ensinar os valores da democracia e do trabalho aos seus pupilos, pois eles foram "alienados" disso por décadas de jugo escravista.
acho sintomático pois ela mesma se mostra incapaz de perceber, pelo menos num primeiro momento, que ela também tem que aprender com a "vida real". e afinal, não há construção democrática possível que não seja numa situação de diálogo, em que a igualdade, a não coerção, a possibilidade de que todos tenham de fato voz e que sejam bem informados sobre os assuntos que lhes cabem decidir. e mais, para citar paulo freire, um dos maiores democratas que conhecemos (não por acaso um educador), que o aprendizado ocorra em cada relação humana, não de modo unilateral mas bilateral.

6. concluindo, assim como em Manderlay, no iraque só pode haver democracia se construída de dentro, de baixo pra cima, com a participação efetiva de todas as forças constituintes daquela nação, eventualmente até com a divisão do país em mais de um, se esta for a vontade de seus habitantes. e uma intervenção externa só pode ser vislumbrada se for para garantir as premissas colocadas acima: a de garantir as condições do diálogo radical.
acho que, a partir disso tudo, creio que compreendo a fala de lars von trier como uma afirmação de que ninguém pode saber a verdade do outro, ninguém que não cada um e cada povo pode decidir por si o seu caminho de libertação. e que (de novo paulo freire) o opressor não pode libertar seu oprimido; é o oprimido que, ao libertar-se, liberta também o seu opressor.

enfim, meu caro, acabei me alongando aqui, mas acho que vai por aí minha compreensão deste tema.
prossigamos o debate!

um abraço

Jec disse...

Concordo com seus argumentos. Meu intuito ao refletir sobre a idéia (agora ideia) de auto-emancipação não passa nem de perto por defender a política internacional norte-americana, assaz conhecida por criar títeres em todo lugar até que estes fogem de controle e deixam de interessar (Trujillo, Pinochet, etc., etc.). Justamente por isso comecei por um exemplo que difere completamente do caso do Iraque, o filme do Tonacci. Não foi uma crítica ao filme nem à atitude do documentarista, mas sim um ponto de partida para colocar em questão justamente a fronteira entre choque de culturas e as relações políticas. O choque de culturas é natural, mas a partir do momento em que ocorre já não está imune a outras tensões. Daí justamente a propositura de meu comentário, que, aliás, vai ao encontro do que vc coloca sobre a necessidade de uma relação dialógica, só acrescento que o diálogo é necessariamente prenhe de transformações que afetam ambos os interlocutores (nem sempre de uma forma simétrica ou harmônica).
O paralelo entre Grace e os Estados Unidos é perfeito, concordo com Lars também. Foi um dos motivos que desagradou grande parte dos norte-americanos.
No entanto, gosto sempre de me contrariar, de duvidar daquilo que eu mesmo afirmo para ver surgir outras faces que poderiam escapar numa primeira análise.
Eis quando surge a questão referente a nossa própria posição nos diferentes cenários, não como observadores, analistas ou espectadores, mas como interlocutores e parte ativa de um processo. Já que falávamos de índios, do respeito cultural, pensemos no caso das pressões internacionais para que os índios da Amazônia tenham maior autonomia em relação ao governo federal. Esta autonomia parece traduzir-se em negociações diretas de madeira entre populações indígenas e grupos estrangeiros. Não sou especialista no assunto indígena, não quero, por isso, delongar-me a respeito. Só penso neste caso para novamente realçar a dificuldade de traçar fronteiras precisas entre contato cultural, relações políticas e interesses econômicos. No âmbito internacional, é impossível pensar o caso do Iraque sem levar em conta o que vc mesmo lembra sobre a “criação” de Saddam para opor-se ao Irã, bem como a questão dos petrodólares. Estamos falando de cultura? Mas me interessam mais nossa própria sociedade, tão colmada de iniquidades, a história dos intelectuais e da esquerda brasileira e nossa postura atual diante de tudo isso. Neste ponto, torna-se mais notória a necessidade de refletir sobre a idéia de auto-emancipação, para que esta não se tresmalhe rumo a uma postura de indiferença, inércia ou inação. Concordo e muito com a citação do Paulo Freire (o opressor não pode libertar seu oprimido; é o oprimido que, ao libertar-se, liberta também o seu opressor). Mas quem somos nós nisso tudo? Que papel temos? Ora opressores, ora oprimidos? A auto-emancipação é mister num processo de transformação, mas somente se completada pelo diálogo e pela compreensão (ou interpretação, quiçá) de um cenário bem mais complexo que não já permite falar em culturas autóctones que simplesmente entram em choque. Bem, sei lá, também me estendi e quanto mais escrevo, mais acho que falta dizer, hehehe... Estou nessa de pensar sobre o modo de organização social em que vivemos hoje que a meus olhos torna-se cada vez mais insuportável e, por isso mesmo, refletir sobre os processos de transformação, tomando como referência outras experiências históricas. Acho que nesse sentido é sempre interessante compreender seu ponto de vista, por isso, agradeço seus comentários e espero continuar esta conversa.
Um abraço,
Javier