sábado, 27 de junho de 2009

Da palavra a ação

Há quem diga que as pressões por transformações só tomam proporções incômodas e ganham certa inevitabilidade, quando o fato objeto de pressão afeta diretamente a classe média. Tal asseveração coere se pensarmos que a classe alta tem meios de pressão e lobby mais diretos e não precisam de grande articulação para fazer-se ouvir, enquanto as classes menos favorecidas carecem em geral justamente da capacidade de articulação, a qual costuma nascer de entidades partidárias, sindicais ou vinculadas aos movimentos de pressão da classe média.
Ignorando a crítica corrente, mas tão infundada como a noção de fim da história, de que a sociedade hoje não mais pode dividir-se em classes, convido a pensar aqui sobre um dos grandes problemas urbanos, especialmente em grandes metrópoles como São Paulo e Rio, a saber, os imensos engarrafamentos e a ineficiência das políticas públicas de transporte.
Conversava com uma amiga envolvida com o movimento dos bikers e, em um determinado momento, ela propôs um argumento que serviu de ponto de partida para este artigo. Eu lhe dizia que gostava da ideia de andar de bicicleta em vez de perder horas no trânsito, mas considerava que a cidade não oferecia estrutura para tanto, pois há trechos que são simplesmente intransitáveis para qualquer meio que não seja motorizado (minhocões, viadutos, túneis, pontes sem passarelas, grandes avenidas expressas, etc.). Ela, por sua vez, argumentou que pedalar era justamente uma forma de pressão, visto que hoje cada vez mais os ciclistas conquistam respeito dos motoristas e a atenção das autoridades, o que, por sua vez, poderá ter influências nas esferas decisórias. De fato, é uma forma interessante de ver o problema, abandonando o plano da crítica e partindo para a ação, mesmo que isso acarrete certos riscos. Mais adiante contou-me que, este ano, já perderam uma amiga atropelada por um ônibus. Efetivamente, é uma espécie de técnica de “guerrilha" com seus riscos correspondentes.
A partir deste colóquio, podemos analisar outra frase bastante corriqueira no discurso da classe média: "se o transporte público fosse melhor, certamente deixaria o carro em casa para ir trabalhar". Aplicando a mesma metodologia, que parte da proposta para a ação, poderíamos inferir que uma forma de pressão seria justamente utilizar o transporte público mesmo com suas precárias condições. Às classes menos favorecidas não resta mais que fazê-lo, acordar às 4 da manhã para uma suplicante jornada, talvez sonhando com o dia em que suas economias permitam parcelar um carro. Pensando na mesma lógica exposta na argumentação acima, a ação consistiria em “sacrificar-se”, acordando às 4 da manhã também ou aceitando chegar atrasado ao trabalho. Optando pela primeira proposta, haveria duas consequências práticas: a superlotação do transporte público que inviabilizaria a chegada da mão de obra a seu destino e o fim das happy hours e atividades de lazer noturnas durante a semana. Ambas as consequências afetariam diretamente os interesses do capital (proprietários dos negócios, empresas, e o mercado do lazer – bares, cerveja, etc.). No segundo caso, o mercado também ver-se-ia afetado pelas perturbações provocadas pelos atrasos. Certamente, se tomo essa decisão isoladamente, o problema será facilmente sanado pela contratação de outro funcionário com competências similares que não tenha tido a “exótica” ideia de abdicar do carro. Mas isto feito com o respaldo de um movimento articulado ganha outro tipo de conotação. Enfim, da palavra à ação o passo é pequeno, resta saber quem de fato deseja as transformações, quem de fato aceita os sacrifícios da nova "guerrilha".

segunda-feira, 9 de março de 2009

Crise, qual crise?

"Creio que dormi tempo demais e perdi o momento em que a América Latina saiu da crise, para agora poder dizer que entrou em crise. Tempo demais para ver o dia em que a África chegou ao status de um continente que pode finalmente afirmar 'estamos em crise'. Acordei justamente com os alaridos de Lula, hoje presidente, ensinando a Bush, mas já alvejando Obama, que o capital deve ter origem no trabalho. Chega de capital especulativo! Clamores, tambores, tamborins, chegou o Carnaval.
De novo todos apontam o dedo para a superfície como se identificassem a causa, alvoroçam-se com a marola para não olhar para os estragos na placa tectônica. Mas como não sou geólogo, vamos direto ao ponto. Lula, Bush, Obama, Osama, Microsoft, Google, são todos cogumelos parasitas de uma mesma árvore cujo tronco está por ruir.
Não é o mercado financeiro, antro de pecadores e hereges que se travestiram em ternos e gravatas de prósperos investidores, o culpado de tudo. Isto é mais um dos efeitos. A 'crise' está no próprio esgotamento de um modelo de produção que já não precisa de trabalhadores, mas não pode dispensar os consumidores. Como cultivá-los? De onde tirá-los? Basta expandir a sua lógica de produção infinita ao todas as esferas da vida, aos serviços, às artes, às apostas. Mas eis que isso só não se sustenta e a 'crise' é postergada a cada pacotão se 'agrava'. Mas não há motivo para pânico, dizem os economistas, especialistas em quimeras, alquimistas do capital, no terceiro trimestre do ano tudo voltará ao normal. Mais um pouco de seiva injetada no putrificado tronco. Mas não há motivo para pânico, digo eu, Johann, afinal, o pior que pode acontecer é a árvore ruir de vez."

Citação de Johann Von Basten Moreira da Silva Andrade Neves *

NEVES, Johann V. B. M. S. A., "Eu tenho todas as respostas, mas não me pergunte nada", Editora Basten S.A., São Paulo, SP; p. 744

Revolucionários...

“Revolucionários (ou revoltados) há de dois tipos:
Os de classe média, brancos, que remoem a culpa até vomitá-la em palavras enjoativas. Em geral, recorrem à ironia na esperança de não cometer a indignidade de falar pelos outros. Deus os livre. Denunciam a petulância e satirizam sua própria condição.
Os intelectuais das classes baixas. Em geral, são toscos, proferem inúmeras nescidades e frases copiadas no intento de soar tão “lúcidos” como os de classe média. Reproduzem os esquemas de enunciação e estruturação dos documentários da TV Cultura. Os primeiros, também não são tão mais brilhantes, buscam sua fonte de inspiração em qualquer intelectual francês da hora.
Outros, ainda, aparecem nas classes baixas. São os que renunciam ao verbo e procuram outras formas de expressão, diferentes das dominantes. Em geral, remetem ao "primitivo", recorrem a gritos, sons guturais, gestos desmesurados, olhos esbugalhados, etc. Mas ainda mais grotesco é quando os intelectuais da classe média se encantam com estes tipos e passam a reproduzir em esferas mais elevadas da cultura aqueles rituais bestializados, alegando tratar-se de uma forma de resistência mais autêntica.
ENFIM, QUANTA INÉPCIA!”

Citação de Johann Von Basten Moreira da Silva Andrade Neves *

NEVES, Johann V. B. M. S. A., "Eu tenho todas as respostas, mas não me pergunte nada", Editora Basten S.A., São Paulo, SP; p. 579

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Comentário sobre "Nada de novo, uma ova"

O comentário a seguir foi inspirado no texto Nada de novo, uma ova (http://contoseafinslucianesilva.blogspot.com/2009/01/nada-de-novo-uma-ova.html), de Luciane Silva. Achei o tema instigante e.... blabla... segue o comentário. Obrigado, Luciane.

Concordo em grande parte com o que você coloca sobre a cegueira atual ao não reconhecer o novo, talvez até por não reconhecer a arte como um processo histórico cujo exame requer certo distanciamento. Reflete também, a meu ver, uma postura muito defendida pelos “pós-modernistas”, especialmente Jameson quem pressupõe que os estilos contemporâneos cheios de anacronismos e pastichos têm sua origem na impossibilidade de criar algo novo.
Penso eu que, de fato, é difícil imaginar hoje inovações estilísticas que irrompam violentamente dentre o ecletismo, a pluralidade e o hibridismo das produções culturais atuais. No entanto, este tipo de postura arroga à contemporaneidade um status de completude que descarta a possibilidade de uma história-devir, atribuindo-lhe um peso museológico que contemplaríamos do alto de nossa integridade. É um contra-senso imaginar que uma inovação possa ser vislumbrada a priori, ela sempre será identificada a posteriori quando já fizer parte de nossa coleção de estilos reconhecíveis, caso contrário não será de fato uma inovação. Profetizar sobre inovações estilísticas é possível em qualquer época, prevê-las com certeza, não.

Por outro lado, acredito que a postura de negar o surgimento do novo na arte tem muito a ver com o fato de esta também constituir um saber sujeito a inúmeras relações de poder, que em seu belicoso desdobramento encontram mais facilidade em atribuir valor a uma obra de arte extemporânea – à qual se possa aferrar como ícone seminal que repousa à nascente de tradições que possam legitimar uma determinada postura ou estilo – que em dialogar com o contemporâneo.

De qualquer maneira, acho prudente desconfiar sempre tanto do neofilismo exasperado que se apressa em reconhecer o caráter revolucionário de qualquer evento, obra, acontecimento e se vê sempre às turras para cunhar um novo termo, em geral um aglomerado de prefixos “pós-pós-pós”, quanto daquelas mais conservadoras que se anegam no passado em busca de legitimação. Nesse sentido, compreendo que o universal, ao qual você se refere, não reside em uma essência imutável à qual determinados artistas teriam um acesso privilegiado. O universal é constantemente redefinido dentro do contexto de tais relações de poderes e saberes e, desta forma, tem restituído seu historicismo.