_ Um calendário de editais. – anunciou orgulhoso o Ministro da Cultura, apoiando um volumoso porta-fólio sobre a mesa de reuniões, imensa em função dos poucos presentes que o sigilo do encontro exigia. Fez uma premeditada e ensaiada pausa na esperança de que alguém interviesse com alguma pergunta. No entanto, o presidente nada mais era que um rosto imóvel com um evidente ponto de interrogação em sua expressão. Do Ministro da Defesa nada tiraria, pois, à diferença do Ministro da Cultura quem tinha a retórica como o bem mais precioso de um homem, fazia do silêncio seu verdadeiro culto. Era de conhecimento de todos no governo que no protetor de tela de seu computador tivera durante muito tempo a frase "Falar é prata, mas o silêncio é ouro", a qual considerava um engenhoso slogan. Só decidiu-se por retirar a frase de seu computador, mas certamente não de seu caráter, quando em uma altercação com o próprio Ministro da Cultura, este com a malícia que o caracteriza, fez a menção do uso que os nazistas faziam desta frase nos campos de concentração para “sugerir” aos internos que se mantivessem em silêncio. Imediatamente, tiveram que se virar os assessores do Ministro da Defesa para providenciar uma nova frase para a incauta tela do computador. Primeiro, entre os assessores, surgiu a ideia de utilizar-se da desbotada máxima Ordem e Progresso, além de patriótico era uma maneira de reiterar o compromisso com a democracia e desfazer eventuais interpretações errôneas que a anterior poderia provocar. Mas, finalmente, um dos assessores, o mais novo e arrojado, sugeriu que se usasse um dito popular e nacional, que além de também enfatizar o tom patriótico do ato, daria ao Ministro um ar mais popular afastando definitivamente as suspeitas que a anterior máxima poderia levantar. “Quem fala demais, dá bom dia a cavalo” passou a estampar a agora simpática tela de computador, a despeito do contragosto que proporcionava ao Ministro.
O silêncio de seus interlocutores não intimidou o Ministro da Cultura que sempre contava com um plano B, afinal o diabo não é sábio por ser diabo, mas sim velho, isso dizem. Após o esgotamento do que se poderia considerar um silêncio razoável, retomou a palavra com a mesma precisa entonação que a interrompera.
_ Sim, um calendário de editais. Eis aqui a proposta que me foi solicitada pelo excelentíssimo presidente para atingir o busílis do problema dos artistas, missão esta à qual espero ter correspondido, conforme explanarei ao expor as miúças do conteúdo do porta-fólio que a seguir passarei para vossa devida apreciação.
A expressão do presidente não se demudara em nada, mas o Ministro da Defesa já dava seus primeiros sinais de impaciência, apesar da promessa que fizera a si mesmo naquela manhã de controlar-se ante a emética loqüela do Ministro da Cultura, para evitar as desagradáveis pugnas que ocorreram em reuniões anteriores e mereceram as devidas reprimendas do presidente.
_ Antes, porém, de adentrar nos meandros do plano, considero assaz necessário resumir alguns dos pontos que nos urgiram a examinar a incipiente, mas já ameaçadora, situação. Segundo as estatísticas levantadas pelo Serviço de Inteligência, lidimamente apresentadas na última reunião extra-ordinária pelo nosso colega, ilustríssimo Ministro da Defesa, é cada vez maior o número de artistas entre a população de nosso país. Atrever-me-ia, plagiando outrem, afirmar que há cada vez mais artistas e já quase não restam homens. Os artistas, sabemos, não representam por si sós uma ameaça cujo jaez mereça especial atenção da pasta da defesa, como bem argumentei anteriormente, pois raramente são capazes de uma posição ou definição política, quanto mais de qualquer tipo de ação periclitante para a preservação da ordem. No máximo, são capazes de certas balbúrdias inférteis e refocilam-se facilmente com o júbilo propiciado pela primeira salva de palmas ou desmesurada ovação. Pintam, cantam, declamam, recitam, gritam, gravam, fotografam em êxtase, cospem arte como uma munição de sal que não mais faz que salgar. Contudo, admito, como tão bem expôs em ocasiões anteriores meu colega aqui presente, ilustríssimo Ministro da Defesa, esta classe, se permanecer ociosa, pode oferecer alguns inconvenientes. Mesmo sem grande sageza política e mais apta a organizar inócuos bafafas, é uma classe que decaída, sem dar vazão a seu ofício, pode, embora sejam escassos exemplos históricos de tal feito, articular-se para reivindicar palcos, telas, arenas, etc. Mais grave, contudo, seria uma eventual conjuminância entre esta classe e movimentos organizados com fins específicos, tais como, os sem-terra, os sem-teto, os quilombolas, movimentos feministas, entre muitos outros. Os artistas, a despeito das poucas luzes no que diz respeito a qualquer ação verdadeiramente eficiente, poderiam avolumar as colunas de tais movimentos e amplificar as vozes inarticuladas que habilmente nosso colega da pasta da defesa, em ações orquestradas conjuntamente com o Ministro da Justiça e o Ministro da Comunicação, fez esmaecer.
A prolixa apresentação do Ministro da Cultura, carece dizer, levava o Ministro da Defesa cada vez mais a um estado de iracúndia quase incontinente. Se não se manifestou, então, foi graças à intervenção do presidente que finalmente saíra da paralisia que o assolava desde o anúncio do plano.
_ Por favor, caro Ministro, rogo-lhe que nos traga mais substância e menos arte e introduza por fim a proposta que nos trouxe.
_ Sim, senhor presidente, não mais preambularei a respeito de tópico já tão conhecido por nossa pequena cúpula, julguei, no entanto, relevante este pequeno intróito para certificar-nos que as metas não discrepam daquelas que o plano contempla. É justamente para evitar o cenário anteriormente descrito que apresento-lhes o que cunhei, de forma assaz explícita, calendário de editais.
Sentiam-se já a sola da bota do Ministro da Defesa a tremelicar sobre os tacos de madeira da fornida sala.
_ Um calendário de editais estrategicamente distribuídos ao longo do ano manterá devidamente ocupada a esta prolífera classe.
Pela primeira vez, parecia que a interrogação na expressão do presidente desfazia-se para dar lugar a um ambíguo sorriso de Monalisa, como se pequenas centelhas estalassem em sua cabeça, guiando-o pelo labiríntico e tortuoso exórdio do seu Ministro. O Ministro da Defesa agora passava a esforçar-se para conter um nascente entusiasmo.
_ Destinaremos uma limitada verba, se aprovado for o plano, cujo montante podemos submeter a exame do Ministro da Fazenda, mas por ora atenhamo-nos ao conceito e não aos números e miuçalhas que adiante serão devidamente estudados. O fato que nos interessa neste momento é como manter ocupada esta classe cada vez mais numerosa e incômoda. Com os editais estrategicamente distribuídos ao longo do ano, os prazos se acumularão, serão inalcançáveis, incutirão nesta classe uma ansiedade severa e, como prazos e organização não costumam ser de seus mais fortes atributos, devemos criar rigorosos formulários, exigências e mecanismos para que o prêmio seja outorgado. Embora não seja nosso primoponendo objetivo, criar-se-ão, como rêmoras famintas, especialistas, peritos em preencher os formulários e os pré-requisitos de cada edital, o que nos é bastante útil para manter uma parcela importante da população igualmente ocupada, gerando um círculo irrompível de relações infrutíferas. Em tempo, já se verão os artistas isolados em seus estúdios, oficinas, salões, muquifos, etc., devorando os obscuros regulamentos dos benevolentes concursos, já nem se falarão, não lhes restará tempo para a criação, o que tampouco deixa de ser um efeito colateral vantajoso para a preservação da ordem. Com o tempo, os grupos se organizarão em pequenos cartéis e se encarregarão de distribuir os prêmios. Os que não pertencerem a este tácito cartel, não farão mais que esbravejar e empenhar-se para obter os contatos necessários para partilhar do generoso maná. Os de dentro, defendê-lo-ão com unhas, dentes, pincéis, instrumentos e corpos virtuosos – novamente fez uma premeditada pausa, mas desta feita, não desejava qualquer intervenção, esperava apenas o tempo exato para coroar sua apresentação com uma frase capaz de estremecer sua minúscula platéia, mas que em termos decisórios representava multidões. – Nada mais se terá de temer, as vozes estarão tão alquebradas que apenas serão capazes de ecoar os ditames de nossa própria ordem.
Já não eram centelhas, mas sim faróis que iluminavam os olhos do presidente e já permitiam destilar um ligeiro sorriso, não me equivoquei na escolha deste assessor, pensaria, algo prepotente, mas não me falha. O sorriso, apesar da referida ligeireza, era suficientemente notório para compensar as noites mal dormidas em busca daquela primorosa equação do Ministro da Cultura quem se inflou e lançou um igualmente ligeiro olhar impertinente ao Ministro da Defesa. A este não lhe restava mais que admitir, deglutindo a seco seu orgulho, torcendo o braço até estirar a pele, que era um bom plano, que pelo momento ao menos deveria abandonar suas sugestões mais drásticas que trazia discretas nos bolsos à espera do fracasso de seu colega.
_ É um bom plano. – mussitou ante o desafiador olhar do Ministro da Cultura que parecia já ocupar todas as cadeiras vazias da mesa.
O Ministro da Cultura, contudo, tinha uma carta extra, uma espécie de sobremesa surpresa preparada e guardada para o triunfo final.
_ Obrigado, caro colega, mas gostaria de adir ainda um detalhe que, se me for permitido por um instante afastar a modéstia, é o bordado que embeleza ainda mais a já graciosa urdidura apresentada, cujos detalhes poderão ser estudados neste confidencial porta-fólio. – preparou uma nova pausa, mas observou os ânimos de seus interlocutores e receou que este desnecessário prolongamento arruinasse seu zenital momento e preferiu não usar mais que uma breve respiração – Todo este cronograma de editais, será ainda mais eficiente em seu propósito se deixarmos grande parte de sua responsabilidade em mãos da iniciativa privada. Além de ajustar ainda mais o nó do cabresto, poupa-nos belas quantias. Mas isto, como previamente comentei, deverá ser estudado pelo nosso colega Ministro da Fazenda, quem certamente terá maior idoneidade para tratar do assunto.
_ É um bom plano. – grunhiu novamente o Ministro da Defesa, já totalmente resignado.
_ Sim – ratificou o presidente para total êxtase do Ministro da Cultura –, é um bom plano. Convocarei uma reunião com os demais ministros para procedermos à sua efetivação, com o devido estudo de todos os detalhes. Fico muito satisfeito que tenhamos chegado a um bom termo ante o preocupante cenário descrito com grande acurácia pelo senhor Ministro da Cultura.
Todo este diálogo, sigiloso do cabo ao rabo, mais do rabo que do cabo, infelizmente ficou inumado pelas grossas paredes da sala de reunião especialmente desenhadas para conter as mais sórdidas tramas políticas que, se conhecidas fossem, revolucionariam a Ciência Política hodierna que reconhece no sistema um ente acéfalo, sem intenções, e rechaça qualquer forma de maniqueísmo. Da mesma forma, o volumoso porta-fólio do Ministro da Cultura seria oportunamente incinerado e daria à luz um asséptico plano técnico, elaborado por tecnocratas e especialistas em Arte e Cultura. Qual profecia inconteste as palavras do Ministro da Cultura tornar-se-iam fato nos anos a seguir. Os editais tornar-se-iam um êxito completo, os artistas já não teriam tempo para se encontrar, pois estariam sempre às turras para terminar de preencher os formulários, expor as justificativas, demonstrar os objetivos e seviciar o verbo em busca de explicações das vantagens e contrapartidas sociais de seus PROJETOS, palavra que em poucos meses seria capaz de substituir qualquer ato de criação. Empresas nasceriam com o único propósito de guiar os desesperados artistas nos obscuros corredores da burocracia. Tudo correria na mais perfeita ordem, aumentando dia a dia o prestígio daquele gênio, a quem intimamente o presidente gostava de comparar a Maquiavel, até o ano de 2008, quando um inesperado sucesso no interior do estado de São Paulo, voltaria a trazer a intranquilidade ao gabinete do governo. Mas esta é outra história que deixaremos para os historiadores e arqueólogos dos séculos vindouros.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário